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O estupor do mercúrio retrógrado

22/03/2018

Eu lavava a louça e as minhas mãos não faziam nada grosseiro ou agressivo. Não, elas simplesmente espalhavam sabão pelos pratos, talheres e garfos. Elas não quebravam nada. Não jogavam nada no chão. De repente meu corpo repetia um mecanismo de limpeza automático e malfeito, desconectado de meu cérebro. Apesar de minha mente, as minhas mãos não transformaram o novo em ruínas e o belo em feio. Eu não entendo como a calmaria se instalou em meu corpo, já que minha mente estava explodindo como uma usina. A legião esdrúxula vingou meu pensamento de caos, minhas sensações foram tomadas por reflexos de uma dimensão estrangeira, disso eu tenho certeza, pois nunca antes experimentei esse tipo de espírito. E dizem que a alma só se cura pelos sentidos e que os sentidos só se curam pela alma, e eu inebriado de violência e brutalidade com as mãos tão limpas.

O que aconteceu enquanto eu lavava a louça, não é deste mundo.  Eram fragmentos de sensações inumanas, um grito sem voz, com uma vibração ensanguentada, que eu ouvi diversas vezes e me arrepiou, de cima até embaixo, toda a espinha. Eram estilhaços, explosões de órgãos e baldes verdes que jogavam água no chão e em rostos desfigurados. Ah, os diabólicos gritos mudos que só tinham ressonância dentro do meu crânio. E a sensação estranha de ter calma só por fora, mãos cheias de espuma retirando restos de feijão dos cantinhos do garfo. Como um vulcão em erupção, meu semblante permaneceu silente. Minha mente se esfacelava em meia voltagem. Era estalar de dentes e uma rouquidão estremecida e eu comecei a acreditar que eu tinha feito algo errado, liberado alguma força maligna com meus atos obscenos. Talvez meu sonho insensato na noite anterior ou os pensamentos proibidos que andei falhando em não visitar. Uma cobra gritava com voz humana no meu lado esquerdo mas nada era compreensível. Cogitei ter aberto um portal para os recônditos do inferno ou do purgatório. Não sei se eram mensagens de mortos em moléstia, sei que não consegui entender o que diziam. Terminei de lavar a louça e resolvi sair da casa o mais rápido possível. Talvez fosse a casa.

Enquanto eu andava pelo jardim, rumo a porta, senti certo alívio. As vozes e imagens estilhaçadas se acalmaram. Ainda assim, temi ser culpa da cidade ou do planeta. Temi ser eu mesmo, próximo passo seria pesquisar a química do desaparecimento para me livrar disso. Mais de uma vez medi meu pulso enquanto olhava para o relógio. 70 batidas por minuto, meu coração funcionava mesmo distante de mim e por isso eu agradecia, assim como a todos os órgãos e sistemas de vias sanguíneas e aéreas.

O resto do dia foi marcado pela chaga mental e senti uma paranóia subjacente que contaminava cada pedaço de pó sobre a mesa e meu relicário. Tratei de tentar ficar invisível e evitar olhares diretos, eu não sabia se eu poderia explodir e, sei lá, matar alguém. A tarde um menino apareceu no trabalho e perguntou se eu andava me sentindo estranhamente silencioso e introspectivo nos últimos tempos. Eu olhei pra ele e tive medo. Ele adicionou: tem algo do passado que você tem pensado? Anda inquieto? Fiquei perplexo com o estranho sorriso que brotava em seu rosto. De que será que ele sabia? Eu respondi que não. Que estava normal, que sempre fui silencioso e pensativo e que não havia nada de novo. Ele respondeu, então, quer dizer que você anda silencioso e pensativo? Eu não sabia o que responder e fiquei assustado. O menino deve ter visto meus olhos de espanto e, para desviar, perguntei se ele era um psicólogo. Ele disse que não, que era somente levado por curiosidades e mistérios. Curiosidades e mistérios. Era ele, ele tinha feito aquilo! O diabo do menino me atiçou o enxofre interno, é claro que nessa cidade repleta de cartazes de gente que amarra o coração e reflete a inveja, alguma coisa ia ricochetear em mim. Me senti amaldiçoado mas livre da sensação bizarra de antes, da beirada do poço da insanidade ou da possessão demoníaca. Quando voltei ao nível consciente, notei que estava com os olhos perdidos no nada, devia ter olhos absurdos e esbugalhados. Rapidamente virei para o menino, para verificar se me observava.  O menino riu e disse que estamos em mercúrio retrógrado. O menino disse como se fizesse festa: “É mercúrio retrógrado!”.




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poesia de aniversário

22/02/2018

Eu sinto um impulso de escrever
como se pra canibalizar minha energia e transformar numa coisa
coisa de estrela ou monumento, talvez fonte, transcrição de sonhos em lacunas
que fazem do sonho outra estrela, monumento, talvez fonte de águas cristalinas
porque desde que saí do meu corpo, uma vez, só sei pensar em água, outra vez
grandes porções de água oculta pelo véu implicam no inconsciente
e sei correr pelos cantos da borda da água, verificando no reflexo do sol as fagulhas
que só existem em mim, já que sou água que não nada e que afunda
e sonho também com jardins e imagens que recentemente descobri, são de contos de fadas
e também sei que o mundo é possível pra além do que se vê
e sei que a magia é gigantesca, como ilhas e antilhas que no revés de si mesmas são poços, novamente, eternamente, crianças boiando em lagos de água cristalina.
Sei que sou o que sou, mas também o que não sou e o que quero ser.
Sou o que nunca fui e sou tudo ao redor, que arquitetou-se como um portão pra outro dia que se acaba, ventre da noite que é infinita.
E a língua dos gatos é muda de olhares em templos baldios de natureza do mundo.
E se eu comer frutas sou como os pássaros, se pensar com os ossos de vento
Mas se comer pão sou tão homem como o máximo homem que não sabe lavar os pratos
Minha saliva tem cordões de vento e um barco atracou em minha nuca
desceram algumas ervas cheias de vida que resolveram brotar em meus ouvidos.
Ah, o prazer de ser canto onde brotam plantas que nada tem de mesquinhas
Que me protegem, como carnívoras, dos olhos pesados de quem quer muito
E nada entende do pouco.
Porque as vezes, sendo a magia tão ampla e o mundo tão igual entre o que é alto e baixo
Me confundo com as forças estrangeiras e sou eu mesmo de outro ponto, universo e buraco negro.
Não, não me confundo como água que toma a forma que desejam.
Por que as vezes chover é a melhor saída, especialmente nos dias de aniversário.
Já que o mundo gira e inventaram o tempo e desejo voar no cume das montanhas mais altas
e sorver de tudo o que é doce e que escorre do tronco de árvores centenárias.
Já que inventaram o tempo e que o ano da planta é toda minha vida em suas raízes sedentas.
Não há de mim outro vértice que não seja sonho. E que a palavra se faça semente
Pois da palavra surgiu a história e dela surgiram minhas mãos cheias de linhas.
e preso em centelhas tão minhas, não sei dizer nada que não seja tremendamente minha experiência numa cidade distante e isso de algum modo, liberta.
E gostar de estar solto na vida é um tremendo salto rumo a minha folha verde
Minha glória em Saturno, de onde um anjo ruflou outra vez suas asas no éter.
Um arco e uma flecha pra alcançar o destino, e nunca olhar pra sua face terrena.
Já que o arcano é um vislumbre do que se esconde em cada pequena folha que nunca será desvendada.
E aí jaz o líquido da existência, como capsulas de âmbar, pedras azuis que sonham em câmera lenta.
Aranhas rosadas tão meigas, perpetuam suas vidas nas teias.
Cabelos de anjo na encruzilhada, na esquina.

Notas sobre ser romântico

04/11/2017

Do Erotismo do Mundo Sketch 1

Minha mãe se sente culpada, por ter me colocado na rua pra brincar com os moleques. Por que eu odiava. Foi horrível mesmo, assim como é o mundo. Mas ela me deu também a saída, mas disso às vezes se esquece. Ela me levou na biblioteca e me deu a Ilha Perdida, pra eu ler. Foi ai que começou. Na primeira vez demorou dois anos. Demorei dois anos para terminar o livro de pouco mais de 100 páginas. Ela me deu um poder ali, de abrir dimensões e em alguns anos outra Ilha, a do Tesouro, me fazia esquecer do bullying. Imaginar minha vida do alto, com a literariedade de suas emoções, que máquina poderosa se instalou em meus sentidos. Ah, a biblioteca, que parecia infinita. Não tinha nada a ver com ser nerd, na escola mal conseguia tirar as notas. Só ia bem em história porque era fácil. É difícil ser romântico e matemático. É difícil até ser realista e ser matemático.

Para ser matemático tem-se que estar num estado específico de mente. Talvez de espírito. Com um foco que toma todo o cérebro, um olhar e uma mão que manipula sinais. Já os românticos, pouco podem ver o que há na sua frente. Não se sabe bem por onde ir, mas se devaneia, se erra por ai, nos dois sentidos da palavra.

Escolher livros pela capa é uma atividade que necessita um olhar profundo, que sabe ultrapassar fronteiras invisíveis, ao contrário do que se pensa. É preciso ver na capa uma paisagem, nu ou natureza morta. É possível ver na capa todo um universo, que nem sempre é o livro mas às vezes é o objeto. Cada livro era um mundo possível, época, doçura ou agressão aos sentidos.

O poder de cair de um lado ou do outro. Vicia-se em pegar livros e muitas vezes não lê-los. Por que às vezes é perceptível que já não lemos mais o livro, mas lemos os pensamentos. O mundo chama a atenção. Como se o tempo não fosse passar enquanto se preocupa em vivê-lo. É quando você de repente percebe que está lendo um livro, você não estava lá, mas decifrando letras. Toda a máquina pára e é preciso retomar.

O mesmo acontece na vida. Às vezes é possível esquecer de estar vivendo. Quando se explode, quando o tempo vira a duração dos seus gestos. Outras vezes se lembra, estou vivendo, vê-se um trajeto, uma espera. É ai que tudo se perde no mundo. O pesadelo do romântico. Nos perdemos imaginando o possível. O tempo passa quando voltamos, não dura. Por que afinal, quem realmente gostaria de pará-lo? Na inércia da eternidade. Só os cristãos, que também não sabem pra onde vão, mas tem fé.

Tanto se aprende na infância, histórias de virgens, suplícios e anjos que voam no céu em paisagens amplas, campos verdejantes, placas de terra e madeira avermelhadas que pareciam vivas diante figuras que traziam esplendor. A eternidade é um pasto onde se anda, com paisagens vitorianas ensandecidas. A imagem cristã, já que a bíblia também é um livro, mas o da minha vó era ilustrado.

A mais romântica é a imagem do diabo. Um diabo vermelho e chifrudo, tão distante de nós, espécie de macabro marciano. Como pode ser tão distante o que permeia todo canto. Põe a tua cara naquele enxofre. É o que diz a igreja, pois todos sabem que o proibido seduz e tem cheiro de liberdade.

Mas de fato é possível que no encanto da reza o tempo dure com os gestos, sílabas redondas, vão e voltam, nas mãos um objeto sagrado. Na duração sente-se estar vivendo mais do que antes. Já se sente o corpo reagindo, a mente clara em suas imagens. As palavras… Já não são palavras. Ali se fala com os anjos e se esconde os demônios debaixo do pano sagrado.

O amor também faz isso, pois tanto permeia quanto Deus ou o Diabo. Quando ele borbulha é como lava e nuvem. Quando tudo se explode se sente o gesto e o gosto do tempo, mas ele passa! Passa como um rio e é tão lindo. Os românticos se apaixonam pela duração, não querem perdê-la, e sofrem, porque sempre voltam. Sentem-se sobre os seus pés. Se não o ritual, o fluxo, qual o sentido? Pergunta muito repetida. Ele procura no labirinto de forças alguma que lhe afague o cosmo. O amor perdura, ainda que o tempo passe, mas como ele passa? Quando ele explode o céu fica cego por um tempo. Os lugares mentais floreiam, ondas vigorosas. O romântico se apaixona, é isso que ele procura, ele experimenta o mundo e o mundo amargo lhe resiste. Pathos que é o sentido enfim. Às vezes fica obcecado, como se gritasse, eu quero a duração no sabor do tempo, a fagulha lá dentro. Às vezes é como um tolo que se joga direto na queda, para sentir a barriga fervilhar.

Os românticos, muitas vezes, estragam o que podia durar, por que já se dão quando sentem a vertigem. Se dão tanto, que desperdiçam, pois voltam. Antes do tempo, do momento, eles percebem que estão novamente sobre seus pés, que estão só lendo um livro e assim o próprio medo começa a minar a vertigem. O medo é um parasita, que se esconde abaixo do estômago. Algumas vezes gera acidez e refluxo e tem-se que tomar cuidado com cigarros. O que tem medo não consegue nem fugir pelos livros, porque se vê a cada página. Uma duração ocupada, exuberante e monótona, que transtorna o ambiente, cria raízes e se alimenta de migalhas. Malha densa. Não passa de um parasita, que notou, lá de cima, quem deseja tanto a duração ao ponto de teme-la.

É por isso, que é preciso transformar o tempo em duração. O romântico que espera que o mundo o assombre a cada instante nunca pode ver o universo em cada migalha. É preciso acreditar na mudança contínua de tudo, na dinâmica de cada partícula e da qual o corpo também é composto. O contínuo fluxo da vida, de lava e nuvem, sempre um eterno conflito, das células ao fim da via láctea. Nunca se sabe o próximo passo, especialmente quando não se é matemático.

O romântico assim, permeia-se de infinito e despreza a eternidade. Os cristãos, com sua morte embalsamada, são românticos tristes mas que se revelam nas graças de seu Deus. A morte é compreendida como um acontecimento, uma ruptura. Os românticos tristes acreditaram demais na imagem pútrida do cadáver para visualizar a complexa dinâmica da morte contínua e exuberante que se edifica na mudança, na duração sem começo ou fim, que é a vida, ou como decidimos chamá-la. Alguns sabem disso, que a saudade é um sopro do passado que suga a vida. Às vezes não, é como um campo, uma fonte bonita por seu desgaste. A mente é livre para criar seus universos, mas somos livres para interagir com seu ofício. E a todo momento tentam te prender, matéria e desgaste, luz fluorescente, pisos de branco hermético e cheiro de desinfetante. Escolhas! Perigos! Te martelam a todo vigor com matemática pois é preciso saber.

E o amor é a brecha, é o meio pela qual se vislumbra a completude, pois por um tempo já não se é mais a si mesmo e é isso que se deseja, diluir a si mesmo antes que o raio parta nossa prisão de torre e monumento. O romântico, em suas ideias deslacradas deseja a todo tempo não ser a si mesmo, mas pura energia, voo de cisne, outra mente, outro corpo, uma estrela.

 

roda gigante

22/10/2017

Donde foi que cheguei, perguntou-se na madrugada surda. Porque nada ouvia seu ruído interno. Canto interno, canto escuro. Não de falta de luz, mas de outra coisa que falta, outra que sobra.

Quero ensaiar, escrever. O erotismo do mundo. O personagem que devo criar antes, e depois a história. Ensaio, ou ficção, o que tenho para dizer. Dos olhos da Bahia que procuram cores vivas, nem um pouco mortas na gráfica. Mas tenho medo de ser muito fenomenólogo, de não entender filosofia.

O meu personagem, tem medo da vida, da entropia. Ou sou eu? Que mago, tranquilo de intento, com medo de fenomenologia.

Faz a relação mal feita nos ombros pesados que doem. Aquele que quer escrever, escreve. Tanto nina a dor no colo malfeito. Sala, antessala, credo e cruz. Lugar em que a palavra maldita não deve ser dita. Não se diz por aqui, na terra de todos os santos.

Meu fluxo dispara para baixo. Tiro que sai pela culatra. Tanto fiz que hoje vi o olho daquelas crianças na rua. Seus saltos repletos de luz que cintila. O cheiro do teatro de rua nos seus sapatinhos perdidos.

Não entendo. Mas entendo tudo. Tudo mesmo. Sei de tudo e de todos, tanto que me perco. Esqueço, já não sei de nada, não me lembro, não me estruturo como linha esguia e horizontal, nem vertical. Plano profundo e vazio.

A arte do coletivo disse o menino da feira. “Eis a magia’. A magia. Essa cidade cheia de fantasmas. Energia que você tem que canalizar a sua pro lado bom, para não cair pro lado ruim. As andanças e seus olhos profundos. Aqui tem gente muito boa e muito ruim. Pronto. Satisfeito, resolvido. Aos poucos. Tudo cresce.

As paredes e os gatos que enlouquecem nas noites. O ruído distante de dinheiro, que penso em vender para conseguir. Saudades. O que significa sentir, quando o vasto é imposto e o dentro se esguia.

Deixei pra trás, voei de avião e tudo no caminho. Passando aos poucos pelo mundo, com uma marca leve, como caminho traçado de lesma. Vivo, no carro da vitória entre as esfinges até encontrar a morte sagrada. Mas aos poucos, deixo pro próximo dia. Amanhã verei seus olhos escuros de destino. Amanhã procurarei empregar meus dedos em atividades mais nobres.

Começa a chover, ouvi um ruído na porta. Vozes lá fora. Meu amor dorme um sono cansado, espero que descanse muito, espero que acorde renovada. Os gatos miam e não se sabe o que sentem, o que pensam. Chega hora de dormir.

Roda gigante, gigante, de matéria fina moldada.

 

Esse é o começo de uma nova era.

21/10/2017

você viu como ele falou aquela hora, ontem a tarde?
viu seu jeito de se mexer, e de olhar
e de se curvar, seus ombros
você viu
como ele faz aquela cara feia
como está pensando e pensando, com as sobrancelhas baixadas
preocupado
ou cansado, jogado, sempre não querendo
sempre não querendo
amargurado, tentando criar incansavelmente
e se chocando sempre com sua própria fronteira
vê seu limite em si mesmo.
Um abismo particular, em formato de espelho
pra ter medo de cair
e nunca cair
já não existe o frio na barriga diante da queda
que dava prazer
agora é só olhar pro escuro do fundo
e voar
mas ai vem um medo
um medo de tudo
de falar, de ouvir, de ver
mais do que meu terceiro olho fechado
minha boca, meu ouvido, minha visão

 

sombra
descola
faz de si outra vida e deixa de me pegar
pelas costas
pois da sua matéria escura
não quero sentir
não quero ver
não quero falar
não quero ouvir

 

a escuridão que esconde a sombra
a luz que ilumina a sua estrela

 

DSCN9727.JPG

 

Previsão do tempo dos terrenos baldios

03/07/2016

Cinco minutos no futuro, cinco minutos a partir de agora meu coração vai bombear como nunca o sangue pro meu cérebro, eu vou pensar nos laços entre minhas mãos, seus olhos e a energia dos terrenos baldios. Daqui cinco minutos vou doutrinar em minha mente a lição da vida dos terrenos baldios, suas multidões embaixo das folhas, a vida baldia e deslacrada, seus olhos. Daqui cinco minutos vou conectar a minha vida ao fluxo de um rio, de um terreno baldio, cheio de pequenas folhas e flores e buracos de insetos, cheio de vida que verte. Em 5 minutos minhas veias, minha língua, seus olhos, meu semblante inerte. Eu que floreio meus olhos com ouvidos cheios de lágrimas. Contingente de vias soltas, água que inunda o pátio, o prédio, o terreno baldio. Em cinco minutos, farei uma previsão, de que a água não se contém por suas bordas de cimento e as borboletas são fadas que significam anjos e morte doce de rio verde, assustam predadores, gritam cores e flanam seus lingotes de fogo. Em cinco minutos, entrei no vértice da minha consistência, na profundeza do centro da minha cabeça, ali onde as palavras se inscrevem num manto limpo. Pequenas sobrevivências em néctar humano, caldo doce, aveia de plasma de corpo, coração de alma, língua de sol. Frio, ectoplasma, coronária, canária, livida, pia veia que bombeia, pia, há cinco minutos, pia o sangue na terra, pia no chão. Eu, daqui cinco minutos conectei todos os terrenos baldios, e sua energia baldia, e o vento que rompe as suas cortinas. Em cinco minutos conectei neurônios que nasceram em hemisférios opostos, eles giram sincronizados no ar, distantes, e não existe palavra pra descrever a força que os conecta. Linhas são sonhos. Retas são sonhos de pontos, letras são o hálito, bafo de sons, sejam compostos ou puros, jipe jipe jipe jipe jipe e em cinco minutos não há mais tempo e o tempo todo existe em cinco minutos, mesmo que não exista tempo ou minutos. Um lugar que ninguém vê, um canto desabitado, sem memória, borbulhando vida ainda desorganizada. Meus olhos que só veem o oposto das cores, do reflexo do brilho do escuro. Cinco minutos de um relógio, de uma música, da vida de um micróbio, eu conecto o som daquela água cheia de esgoto em minha estação de tratamento, minha mente, lua vermelha com lábios de céu, escorro lichia em meus barros, languida em meus braços, esguia de barro, lar do meu céu do meu lar doce mel. Meu filtro se suja de alma tão limpa. Onde no ar há de haver limpo, poeira de esteira, loja de plástico, prédio de barro, escondido no canto, no feltro. Aquele pássaro paralisado no chão, perto do rio, bica na água, não tem peixe nem água nem bica nem barro nem pássaro, eu vi daqui 5 minutos, eu vi daqui cinco minutos um homem morreu, um carro bateu, um som de inverno na televisão, uma menina lembrou de 5 minutos atrás, 5 minutos antes de agora, 5 minutos na história, no mesmo lado do mesmo canto do barro daquele terreno baldio que ninguém vê, ninguém olha, onde ninguém sonha, e ele se deforma e desdenha, desenha principalmente de noite, quando o escuro fica úmido e fundo e o ar fica com um cheiro de orvalho de todos os sonos suspirados nas crinas dos cavalos, o terreno desorientado, corrompido tão doce azulado no escuro. Pulmão. Em 5 minutos um cigarro. Uma escolha, meu filtro de barro de água cristalina, cheia de lodo, estômago estremece, hormônio de máquina, um homem que injeta morfina. O tempo são passos, clima, horas são vácuo, horas insipidas, incolores, águas de cheiro, em 5 minutos eu me deito naquele chão de baldio de um terreno, sinto o frio do chão nas minhas costas e o céu é infinito em uma abóboda e conecto todos os terrenos baldios, cheios de gatos e seus olhos e os anjos planetas meus sonhos, terrenos, baldios, ervas do mato da rua que tem vida e o chão é mesquinho e minhas lutas e luas definham, lamparina, luz de vaga-lume, nectarina, trêmulo, opaco, textura dos olhos, do verde cor de mato, cinco minutos em sua boca, dentes de mato, língua verde de gato. Os olhos de gato. Em cinco minutos todos os gatos pararão no ar 5 milímetros do chão, 5 minutos daqui, 5 milímetros do chão, 5 minutos daqui, 5 minutos do cão, 5 minutos dali, e nenhum homem vai notar, nem régua ou fita métrica ou a divinação das incertezas insinua em poças de chuva antiga, e ninguém nunca vai saber ou saberá, aquilo que está entre a terra a 5 milímetros e o céu, em 5 minutos, eu previ o futuro de 5 minutos daqui, nada vai acontecer em 5 minutos e no nada existe tudo, eu pulso, 5 milímetros daqui, cinco minutos do chão.

O discurso do vampiro

12/12/2015

Eu posso te impressionar, escrever mil palavras, sem travas, cem larvas
decepcionar seus olhos que choram lágrimas escravas, malárias, internas, suas águas
cisternas, repletas de ventos das noites dos campos dos lírios dos mantos
e eu centrifugo, repito, giro me escondo e nunca respondo
ou leio, decifro e devoro e agora você precisa de mim e sem mim não há nada
eu posso te decepcionar, escrever mil palavras, sem travas, sem falas
eu falo rápido e me estrangulo nas mágoas, ansioso em escalas que nem mesmo cálculo
não, não tenho medo do escuro, não, não me escondo em cima do muro.
eu sou o escuro e ilumino o caminho com a minha chama interna, lanterna em poços tão fundos.
eu tenho medo do escuro, já me escondi no seu fundo, eu amo meu muro e eu fodo meu muro
eu posso te deixar sem ar, te dissecar na cama cheia de plantas, um mar, uma flora a sua lábia maravilhosa o encanto no meu duro desejo, um cisne raivoso de pernas e pétalas. Ensejo, manejo, destruo, não há glória no mundo.
Teu arco, uma nota, um veneno, um eclipse.
Eu na madrugada te faço mostrar para mim o teu mundo, confia em mim que sou ímpio, sou puro, confia na luz que te cega e te anula. Confia no corpo do outro da cama, sou lama te faço a perfeita no barro.
Te quebro, te esqueço, eu choro de solidão e te odeio, eu te amo te quero, não quero, me inflamo, meu órgão te quer minha alma quer outra, a divisão precária de um sono e de um sonho, qual cor de som, de lava, de lua em papel cortado. Luz verde de som.
desejo vinte e quatro todas elas que uma nave branca venha repleta de olhos e me leve pra lá, onde os sonhos são flutuar no teu passo. Calo, não falo, minha palavra reverbera vazia em teu colo.
eu durmo. Eu choro.
Sou eu contra o espelho, o conflito irritante de um reflexo inverso.
ah, eu me esfacelo. Te convenço de deus, da crença de si mesma, te convenço. Te salvo.
Minha empatia é a tua saída, e meu desprezo a tua queda.
Eu me anulo e é pra isso que serve a presença tua, porque sozinho existo demais e teu buraco é minha selva.
Eu me anulo e me sinto bem como a chuva, a poça que revela desejos do céu
já me esqueci do intento, isso é bom, você tem olhos de louca
eu leio suas bolas escuras e marco em mim minhas bordas escuras
Sou o território de seu mapa e suas escolhas são meus caminhos.
Eu dono do vasto campo dos ruídos, ruínas e sinais, que tudo que falo vira campos de matéria organizada, dou minha palavra ao vento da chuva da tempestade que leva em raios a minha profunda analogia ao cosmos.
eu que não quero existir
rompi o lacre da tua boca
engoli tua saliva e já chove em mim
e eu quero sentir sem ser eu
lavrar em meu rosto a cara de um anjo outro diabo distante e escuro
tudo o que se é de uma vez, explodir pra nunca ter recesso, hiato, tempo precário, perdido. A vida é uma trilha cheia de buracos
estamos descalços
vê que o sol se apaga e explode em mil anos e já estaremos mortos
e eu vou ser você e você será eu
E seremos um, que te importa agora seu individual?
seu sujeito de direito de verdade, acertada, legal, dívida e culpa em tua cabeça pequena?
eu te convenço, parâmetro de posse, vampiro de sonhos, dentes de alho em tua boca de ferro que me mastiga,
eu amo isso.
eu amo o triturar dos dentinhos polidos, riscados de ranger, ver que minha força é tua fraqueza e minha fraqueza a tua força.
Deixa eu tirar fotos da sua energia escura e colar no mural da minha cama
meus dias são o sono dos anjos que cessaram de andar invisíveis atrás de homens incompetentes.
eu sou teu dono porque seu vazio preenche o meu buraco no peito.
Eu ressoo em suas paredes, um pesadelo de rosas queimadas em um dia ensolarado, lambi sua cara em um anjo duro na pedra de um cemitério. Comi tuas unhas enquanto dormia.
Tenho medo do seu sangue, ele me mostra sua carne e vejo um coração que pulsa.
eu ressoo nessas veias e me perco.
Querida, te peço, acende uma vela por mim que eu morro por ti
não fala isso eu te amo,
mas eu só erro na vida, te esqueço te deploro
não fala isso eu te amo,
não fala, só fica.
fica,
leva tudo
de mim
leva
tudo.