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Notas sobre ser romântico

04/11/2017

Do Erotismo do Mundo Sketch 1

Minha mãe se sente culpada, por ter me colocado na rua pra brincar com os moleques. Por que eu odiava. Foi horrível mesmo, assim como é o mundo. Mas ela me deu também a saída, mas disso às vezes se esquece. Ela me levou na biblioteca e me deu a Ilha Perdida, pra eu ler. Foi ai que começou. Na primeira vez demorou dois anos. Demorei dois anos para terminar o livro de pouco mais de 100 páginas. Ela me deu um poder ali, de abrir dimensões e em alguns anos outra Ilha, a do Tesouro, me fazia esquecer do bullying. Imaginar minha vida do alto, com a literariedade de suas emoções, que máquina poderosa se instalou em meus sentidos. Ah, a biblioteca, que parecia infinita. Não tinha nada a ver com ser nerd, na escola mal conseguia tirar as notas. Só ia bem em história porque era fácil. É difícil ser romântico e matemático. É difícil até ser realista e ser matemático.

Para ser matemático tem-se que estar num estado específico de mente. Talvez de espírito. Com um foco que toma todo o cérebro, um olhar e uma mão que manipula sinais. Já os românticos, pouco podem ver o que há na sua frente. Não se sabe bem por onde ir, mas se devaneia, se erra por ai, nos dois sentidos da palavra.

Escolher livros pela capa é uma atividade que necessita um olhar profundo, que sabe ultrapassar fronteiras invisíveis, ao contrário do que se pensa. É preciso ver na capa uma paisagem, nu ou natureza morta. É possível ver na capa todo um universo, que nem sempre é o livro mas às vezes é o objeto. Cada livro era um mundo possível, época, doçura ou agressão aos sentidos.

O poder de cair de um lado ou do outro. Vicia-se em pegar livros e muitas vezes não lê-los. Por que às vezes é perceptível que já não lemos mais o livro, mas lemos os pensamentos. O mundo chama a atenção. Como se o tempo não fosse passar enquanto se preocupa em vivê-lo. É quando você de repente percebe que está lendo um livro, você não estava lá, mas decifrando letras. Toda a máquina pára e é preciso retomar.

O mesmo acontece na vida. Às vezes é possível esquecer de estar vivendo. Quando se explode, quando o tempo vira a duração dos seus gestos. Outras vezes se lembra, estou vivendo, vê-se um trajeto, uma espera. É ai que tudo se perde no mundo. O pesadelo do romântico. Nos perdemos imaginando o possível. O tempo passa quando voltamos, não dura. Por que afinal, quem realmente gostaria de pará-lo? Na inércia da eternidade. Só os cristãos, que também não sabem pra onde vão, mas tem fé.

Tanto se aprende na infância, histórias de virgens, suplícios e anjos que voam no céu em paisagens amplas, campos verdejantes, placas de terra e madeira avermelhadas que pareciam vivas diante figuras que traziam esplendor. A eternidade é um pasto onde se anda, com paisagens vitorianas ensandecidas. A imagem cristã, já que a bíblia também é um livro, mas o da minha vó era ilustrado.

A mais romântica é a imagem do diabo. Um diabo vermelho e chifrudo, tão distante de nós, espécie de macabro marciano. Como pode ser tão distante o que permeia todo canto. Põe a tua cara naquele enxofre. É o que diz a igreja, pois todos sabem que o proibido seduz e tem cheiro de liberdade.

Mas de fato é possível que no encanto da reza o tempo dure com os gestos, sílabas redondas, vão e voltam, nas mãos um objeto sagrado. Na duração sente-se estar vivendo mais do que antes. Já se sente o corpo reagindo, a mente clara em suas imagens. As palavras… Já não são palavras. Ali se fala com os anjos e se esconde os demônios debaixo do pano sagrado.

O amor também faz isso, pois tanto permeia quanto Deus ou o Diabo. Quando ele borbulha é como lava e nuvem. Quando tudo se explode se sente o gesto e o gosto do tempo, mas ele passa! Passa como um rio e é tão lindo. Os românticos se apaixonam pela duração, não querem perdê-la, e sofrem, porque sempre voltam. Sentem-se sobre os seus pés. Se não o ritual, o fluxo, qual o sentido? Pergunta muito repetida. Ele procura no labirinto de forças alguma que lhe afague o cosmo. O amor perdura, ainda que o tempo passe, mas como ele passa? Quando ele explode o céu fica cego por um tempo. Os lugares mentais floreiam, ondas vigorosas. O romântico se apaixona, é isso que ele procura, ele experimenta o mundo e o mundo amargo lhe resiste. Pathos que é o sentido enfim. Às vezes fica obcecado, como se gritasse, eu quero a duração no sabor do tempo, a fagulha lá dentro. Às vezes é como um tolo que se joga direto na queda, para sentir a barriga fervilhar.

Os românticos, muitas vezes, estragam o que podia durar, por que já se dão quando sentem a vertigem. Se dão tanto, que desperdiçam, pois voltam. Antes do tempo, do momento, eles percebem que estão novamente sobre seus pés, que estão só lendo um livro e assim o próprio medo começa a minar a vertigem. O medo é um parasita, que se esconde abaixo do estômago. Algumas vezes gera acidez e refluxo e tem-se que tomar cuidado com cigarros. O que tem medo não consegue nem fugir pelos livros, porque se vê a cada página. Uma duração ocupada, exuberante e monótona, que transtorna o ambiente, cria raízes e se alimenta de migalhas. Malha densa. Não passa de um parasita, que notou, lá de cima, quem deseja tanto a duração ao ponto de teme-la.

É por isso, que é preciso transformar o tempo em duração. O romântico que espera que o mundo o assombre a cada instante nunca pode ver o universo em cada migalha. É preciso acreditar na mudança contínua de tudo, na dinâmica de cada partícula e da qual o corpo também é composto. O contínuo fluxo da vida, de lava e nuvem, sempre um eterno conflito, das células ao fim da via láctea. Nunca se sabe o próximo passo, especialmente quando não se é matemático.

O romântico assim, permeia-se de infinito e despreza a eternidade. Os cristãos, com sua morte embalsamada, são românticos tristes mas que se revelam nas graças de seu Deus. A morte é compreendida como um acontecimento, uma ruptura. Os românticos tristes acreditaram demais na imagem pútrida do cadáver para visualizar a complexa dinâmica da morte contínua e exuberante que se edifica na mudança, na duração sem começo ou fim, que é a vida, ou como decidimos chamá-la. Alguns sabem disso, que a saudade é um sopro do passado que suga a vida. Às vezes não, é como um campo, uma fonte bonita por seu desgaste. A mente é livre para criar seus universos, mas somos livres para interagir com seu ofício. E a todo momento tentam te prender, matéria e desgaste, luz fluorescente, pisos de branco hermético e cheiro de desinfetante. Escolhas! Perigos! Te martelam a todo vigor com matemática pois é preciso saber.

E o amor é a brecha, é o meio pela qual se vislumbra a completude, pois por um tempo já não se é mais a si mesmo e é isso que se deseja, diluir a si mesmo antes que o raio parta nossa prisão de torre e monumento. O romântico, em suas ideias deslacradas deseja a todo tempo não ser a si mesmo, mas pura energia, voo de cisne, outra mente, outro corpo, uma estrela.

 

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roda gigante

22/10/2017

Donde foi que cheguei, perguntou-se na madrugada surda. Porque nada ouvia seu ruído interno. Canto interno, canto escuro. Não de falta de luz, mas de outra coisa que falta, outra que sobra.

Quero ensaiar, escrever. O erotismo do mundo. O personagem que devo criar antes, e depois a história. Ensaio, ou ficção, o que tenho para dizer. Dos olhos da Bahia que procuram cores vivas, nem um pouco mortas na gráfica. Mas tenho medo de ser muito fenomenólogo, de não entender filosofia.

O meu personagem, tem medo da vida, da entropia. Ou sou eu? Que mago, tranquilo de intento, com medo de fenomenologia.

Faz a relação mal feita nos ombros pesados que doem. Aquele que quer escrever, escreve. Tanto nina a dor no colo malfeito. Sala, antessala, credo e cruz. Lugar em que a palavra maldita não deve ser dita. Não se diz por aqui, na terra de todos os santos.

Meu fluxo dispara para baixo. Tiro que sai pela culatra. Tanto fiz que hoje vi o olho daquelas crianças na rua. Seus saltos repletos de luz que cintila. O cheiro do teatro de rua nos seus sapatinhos perdidos.

Não entendo. Mas entendo tudo. Tudo mesmo. Sei de tudo e de todos, tanto que me perco. Esqueço, já não sei de nada, não me lembro, não me estruturo como linha esguia e horizontal, nem vertical. Plano profundo e vazio.

A arte do coletivo disse o menino da feira. “Eis a magia’. A magia. Essa cidade cheia de fantasmas. Energia que você tem que canalizar a sua pro lado bom, para não cair pro lado ruim. As andanças e seus olhos profundos. Aqui tem gente muito boa e muito ruim. Pronto. Satisfeito, resolvido. Aos poucos. Tudo cresce.

As paredes e os gatos que enlouquecem nas noites. O ruído distante de dinheiro, que penso em vender para conseguir. Saudades. O que significa sentir, quando o vasto é imposto e o dentro se esguia.

Deixei pra trás, voei de avião e tudo no caminho. Passando aos poucos pelo mundo, com uma marca leve, como caminho traçado de lesma. Vivo, no carro da vitória entre as esfinges até encontrar a morte sagrada. Mas aos poucos, deixo pro próximo dia. Amanhã verei seus olhos escuros de destino. Amanhã procurarei empregar meus dedos em atividades mais nobres.

Começa a chover, ouvi um ruído na porta. Vozes lá fora. Meu amor dorme um sono cansado, espero que descanse muito, espero que acorde renovada. Os gatos miam e não se sabe o que sentem, o que pensam. Chega hora de dormir.

Roda gigante, gigante, de matéria fina moldada.

 

Esse é o começo de uma nova era.

21/10/2017

você viu como ele falou aquela hora, ontem a tarde?
viu seu jeito de se mexer, e de olhar
e de se curvar, seus ombros
você viu
como ele faz aquela cara feia
como está pensando e pensando, com as sobrancelhas baixadas
preocupado
ou cansado, jogado, sempre não querendo
sempre não querendo
amargurado, tentando criar incansavelmente
e se chocando sempre com sua própria fronteira
vê seu limite em si mesmo.
Um abismo particular, em formato de espelho
pra ter medo de cair
e nunca cair
já não existe o frio na barriga diante da queda
que dava prazer
agora é só olhar pro escuro do fundo
e voar
mas ai vem um medo
um medo de tudo
de falar, de ouvir, de ver
mais do que meu terceiro olho fechado
minha boca, meu ouvido, minha visão

 

sombra
descola
faz de si outra vida e deixa de me pegar
pelas costas
pois da sua matéria escura
não quero sentir
não quero ver
não quero falar
não quero ouvir

 

a escuridão que esconde a sombra
a luz que ilumina a sua estrela

 

DSCN9727.JPG

 

Previsão do tempo dos terrenos baldios

03/07/2016

Cinco minutos no futuro, cinco minutos a partir de agora meu coração vai bombear como nunca o sangue pro meu cérebro, eu vou pensar nos laços entre minhas mãos, seus olhos e a energia dos terrenos baldios. Daqui cinco minutos vou doutrinar em minha mente a lição da vida dos terrenos baldios, suas multidões embaixo das folhas, a vida baldia e deslacrada, seus olhos. Daqui cinco minutos vou conectar a minha vida ao fluxo de um rio, de um terreno baldio, cheio de pequenas folhas e flores e buracos de insetos, cheio de vida que verte. Em 5 minutos minhas veias, minha língua, seus olhos, meu semblante inerte. Eu que floreio meus olhos com ouvidos cheios de lágrimas. Contingente de vias soltas, água que inunda o pátio, o prédio, o terreno baldio. Em cinco minutos, farei uma previsão, de que a água não se contém por suas bordas de cimento e as borboletas são fadas que significam anjos e morte doce de rio verde, assustam predadores, gritam cores e flanam seus lingotes de fogo. Em cinco minutos, entrei no vértice da minha consistência, na profundeza do centro da minha cabeça, ali onde as palavras se inscrevem num manto limpo. Pequenas sobrevivências em néctar humano, caldo doce, aveia de plasma de corpo, coração de alma, língua de sol. Frio, ectoplasma, coronária, canária, livida, pia veia que bombeia, pia, há cinco minutos, pia o sangue na terra, pia no chão. Eu, daqui cinco minutos conectei todos os terrenos baldios, e sua energia baldia, e o vento que rompe as suas cortinas. Em cinco minutos conectei neurônios que nasceram em hemisférios opostos, eles giram sincronizados no ar, distantes, e não existe palavra pra descrever a força que os conecta. Linhas são sonhos. Retas são sonhos de pontos, letras são o hálito, bafo de sons, sejam compostos ou puros, jipe jipe jipe jipe jipe e em cinco minutos não há mais tempo e o tempo todo existe em cinco minutos, mesmo que não exista tempo ou minutos. Um lugar que ninguém vê, um canto desabitado, sem memória, borbulhando vida ainda desorganizada. Meus olhos que só veem o oposto das cores, do reflexo do brilho do escuro. Cinco minutos de um relógio, de uma música, da vida de um micróbio, eu conecto o som daquela água cheia de esgoto em minha estação de tratamento, minha mente, lua vermelha com lábios de céu, escorro lichia em meus barros, languida em meus braços, esguia de barro, lar do meu céu do meu lar doce mel. Meu filtro se suja de alma tão limpa. Onde no ar há de haver limpo, poeira de esteira, loja de plástico, prédio de barro, escondido no canto, no feltro. Aquele pássaro paralisado no chão, perto do rio, bica na água, não tem peixe nem água nem bica nem barro nem pássaro, eu vi daqui 5 minutos, eu vi daqui cinco minutos um homem morreu, um carro bateu, um som de inverno na televisão, uma menina lembrou de 5 minutos atrás, 5 minutos antes de agora, 5 minutos na história, no mesmo lado do mesmo canto do barro daquele terreno baldio que ninguém vê, ninguém olha, onde ninguém sonha, e ele se deforma e desdenha, desenha principalmente de noite, quando o escuro fica úmido e fundo e o ar fica com um cheiro de orvalho de todos os sonos suspirados nas crinas dos cavalos, o terreno desorientado, corrompido tão doce azulado no escuro. Pulmão. Em 5 minutos um cigarro. Uma escolha, meu filtro de barro de água cristalina, cheia de lodo, estômago estremece, hormônio de máquina, um homem que injeta morfina. O tempo são passos, clima, horas são vácuo, horas insipidas, incolores, águas de cheiro, em 5 minutos eu me deito naquele chão de baldio de um terreno, sinto o frio do chão nas minhas costas e o céu é infinito em uma abóboda e conecto todos os terrenos baldios, cheios de gatos e seus olhos e os anjos planetas meus sonhos, terrenos, baldios, ervas do mato da rua que tem vida e o chão é mesquinho e minhas lutas e luas definham, lamparina, luz de vaga-lume, nectarina, trêmulo, opaco, textura dos olhos, do verde cor de mato, cinco minutos em sua boca, dentes de mato, língua verde de gato. Os olhos de gato. Em cinco minutos todos os gatos pararão no ar 5 milímetros do chão, 5 minutos daqui, 5 milímetros do chão, 5 minutos daqui, 5 minutos do cão, 5 minutos dali, e nenhum homem vai notar, nem régua ou fita métrica ou a divinação das incertezas insinua em poças de chuva antiga, e ninguém nunca vai saber ou saberá, aquilo que está entre a terra a 5 milímetros e o céu, em 5 minutos, eu previ o futuro de 5 minutos daqui, nada vai acontecer em 5 minutos e no nada existe tudo, eu pulso, 5 milímetros daqui, cinco minutos do chão.

O discurso do vampiro

12/12/2015

Eu posso te impressionar, escrever mil palavras, sem travas, cem larvas
decepcionar seus olhos que choram lágrimas escravas, malárias, internas, suas águas
cisternas, repletas de ventos das noites dos campos dos lírios dos mantos
e eu centrifugo, repito, giro me escondo e nunca respondo
ou leio, decifro e devoro e agora você precisa de mim e sem mim não há nada
eu posso te decepcionar, escrever mil palavras, sem travas, sem falas
eu falo rápido e me estrangulo nas mágoas, ansioso em escalas que nem mesmo cálculo
não, não tenho medo do escuro, não, não me escondo em cima do muro.
eu sou o escuro e ilumino o caminho com a minha chama interna, lanterna em poços tão fundos.
eu tenho medo do escuro, já me escondi no seu fundo, eu amo meu muro e eu fodo meu muro
eu posso te deixar sem ar, te dissecar na cama cheia de plantas, um mar, uma flora a sua lábia maravilhosa o encanto no meu duro desejo, um cisne raivoso de pernas e pétalas. Ensejo, manejo, destruo, não há glória no mundo.
Teu arco, uma nota, um veneno, um eclipse.
Eu na madrugada te faço mostrar para mim o teu mundo, confia em mim que sou ímpio, sou puro, confia na luz que te cega e te anula. Confia no corpo do outro da cama, sou lama te faço a perfeita no barro.
Te quebro, te esqueço, eu choro de solidão e te odeio, eu te amo te quero, não quero, me inflamo, meu órgão te quer minha alma quer outra, a divisão precária de um sono e de um sonho, qual cor de som, de lava, de lua em papel cortado. Luz verde de som.
desejo vinte e quatro todas elas que uma nave branca venha repleta de olhos e me leve pra lá, onde os sonhos são flutuar no teu passo. Calo, não falo, minha palavra reverbera vazia em teu colo.
eu durmo. Eu choro.
Sou eu contra o espelho, o conflito irritante de um reflexo inverso.
ah, eu me esfacelo. Te convenço de deus, da crença de si mesma, te convenço. Te salvo.
Minha empatia é a tua saída, e meu desprezo a tua queda.
Eu me anulo e é pra isso que serve a presença tua, porque sozinho existo demais e teu buraco é minha selva.
Eu me anulo e me sinto bem como a chuva, a poça que revela desejos do céu
já me esqueci do intento, isso é bom, você tem olhos de louca
eu leio suas bolas escuras e marco em mim minhas bordas escuras
Sou o território de seu mapa e suas escolhas são meus caminhos.
Eu dono do vasto campo dos ruídos, ruínas e sinais, que tudo que falo vira campos de matéria organizada, dou minha palavra ao vento da chuva da tempestade que leva em raios a minha profunda analogia ao cosmos.
eu que não quero existir
rompi o lacre da tua boca
engoli tua saliva e já chove em mim
e eu quero sentir sem ser eu
lavrar em meu rosto a cara de um anjo outro diabo distante e escuro
tudo o que se é de uma vez, explodir pra nunca ter recesso, hiato, tempo precário, perdido. A vida é uma trilha cheia de buracos
estamos descalços
vê que o sol se apaga e explode em mil anos e já estaremos mortos
e eu vou ser você e você será eu
E seremos um, que te importa agora seu individual?
seu sujeito de direito de verdade, acertada, legal, dívida e culpa em tua cabeça pequena?
eu te convenço, parâmetro de posse, vampiro de sonhos, dentes de alho em tua boca de ferro que me mastiga,
eu amo isso.
eu amo o triturar dos dentinhos polidos, riscados de ranger, ver que minha força é tua fraqueza e minha fraqueza a tua força.
Deixa eu tirar fotos da sua energia escura e colar no mural da minha cama
meus dias são o sono dos anjos que cessaram de andar invisíveis atrás de homens incompetentes.
eu sou teu dono porque seu vazio preenche o meu buraco no peito.
Eu ressoo em suas paredes, um pesadelo de rosas queimadas em um dia ensolarado, lambi sua cara em um anjo duro na pedra de um cemitério. Comi tuas unhas enquanto dormia.
Tenho medo do seu sangue, ele me mostra sua carne e vejo um coração que pulsa.
eu ressoo nessas veias e me perco.
Querida, te peço, acende uma vela por mim que eu morro por ti
não fala isso eu te amo,
mas eu só erro na vida, te esqueço te deploro
não fala isso eu te amo,
não fala, só fica.
fica,
leva tudo
de mim
leva
tudo.

ensaio sobre a dádiva

12/11/2015

Eu construí um altar para você.
Mas nem sou santa, tampouco morri.
Eu quebrei essas leis para você.
Eu sinto quebrar no ar
uma faca, uma bússola desregulada que mostra o meu lugar
um espelho manchado lhe cai bem meu bem
e a ferida curada no álcool
e minha mente poderia ser mais minha
e tão menos sua
a luz matutina mas é um brilho de lua.
O fogo é real, e o gelo também
como o rei e a rainha
que se amam no topo de um mapa
uma trilha do ouro no território
uma caixa velha de ferro, um pata de aranha quebrada.
No meu altar tem portas pra você.
Mas eu não sou casa, tampouco morada.
Eu criei novas leis para você.
Um jardim de flores secas que nunca caem.
Um conselho de arcano
o circuito nunca fecha se eu não fecho os olhos
Ali tem nebulosa e um toque suave, molhado
vento e luz e sou surdo, sou tudo.
Vibram e pestanejam os olhos são ilhas
em rostos de água
cartas que escrevem sozinhas
traços que descrevem seus passos
moram na minha cozinha, largos, no pátio
na praça das loucas na esquina
ergui um laço de vento, nas costas de um tronco
eu que mordi as folhas verdes,
na janela o cavalo fugiu, pra outro campo
esqueceu dos meus olhos do mato
verde, verdinhos caídos
pestes de pura água benta
que a estática da tevê benzeu
bocas que se mordem sozinhas
livres de suas ilhas sem margem, os rostos na esquina.
Eu criei sementes que secaram no chão
fiz enchentes em seus braços, suas mãos.
Mas eu que sei das bordas, dos espaços de mim.
Tampouco comi do seu pão.
Eu criei novas leis para nós.
Eu falo que escuto e a voz retorna opaca eco vazia
oi me responde sou eu
eu criei você que sou eu que sou eu.
Eu compus um mantra para você
Mas não só repito, me expulso, me extingo, tampouco paraíso
os últimos fios de cabelo em um canto tive coragem de jogar no lixo.
os resquícios.
Minha alma não tem preço fixo, hoje troquei por um cheiro,
amanhã já vale um milhão, cordas de relógio, frutas
um chão escuro, um abraço de velório.
Código de homens espúrios
grita a velha louca na esquina, já vão todos pro inferno?
Já bebi os espíritos, estou cheio deles
de mim e do resto só há um vasto caminho.
Não rio nem choro
nem sei como assinar meu nome
eu sequer existo quando estou longe
se você mexe lá no fundo sobe um cheiro de cobre,
você se sente como um inseto quando acorda
você reza uma ave maria e se ajoelha na beira da cama
mas seus joelhos não sabem rezar
a fumaça das velas faz mal
caí um pedaço e seus olhos já não sabem mais me pedir, eu já vi.
Eles querem me devolver no setor de trocas.
senhor no céu tende piedade de mim
que jaz na ideia
e eu não sei o que falo
o meu querer é uma fraca chama fria
que eu desenho como um vulcão em que jovens se suicidam,
quentes como Empédocles, o deus da lava, fogo de pedra.
gosto de ver eles pulando dentro de mim, seduzidos pelo brilho do inferno.
Minhas moedas tem a cara de Eva.
o gosto do pecado é o cheiro das ervas.
Deixa que minha língua me leve
eu que sempre gostei dos anjos porque são alados
voei nas costas de um em um sonho acordado, mas o alarme tocou.
os anjos não tem paraquedas
lançam do abismo suas flechas isentas de tudo que é humano
corta meu peito sem ver, a espada de um querubim de asas que ruflam macias
vários deles rodeiam, giram, inexpressivos
acordo de pé e são todos morcegos
mordi um que agora goza a mortalidade:
a morte agora me espera, eu quero lamber a boca dela.
E se o sangue já para
é melhor tomar todo antes que vire pedra
A gota de orvalho já em queda
eu fiz tudo para você, sou eu mesmo, toma o presente, não faça desfeita.
não deixe que a fé seja feita de palavras vazias.
a luz matutina mas é um brilho de lua.
e tão menos sua
e minha mente poderia ser mais minha
e a ferida curada no álcool
um espelho manchado lhe cai bem meu bem
uma faca, uma bússola desregulada que mostra o meu lugar
Eu sinto quebrar no ar
Eu quebrei essas leis para você.
Mas nem sou santa, tampouco morri.
Eu construí um altar para você.

o enforcado

09/11/2015

Dissolvo em mim a impaciência
o contorno da ânsia e da vontade
o desejo de tocar a onisciência
um amargo pintado de saudade

Pendurado pelos pés nos teus pés
arrasto ondas de uns olhos escuros
eu só vejo das horas o revés
meus dias são grandes vastos muros

Já esqueci que o tempo não esquece
eu que esqueço, me enfraqueço
não perco nada e tua mão me fortalece