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Previsão do tempo dos terrenos baldios

03/07/2016

Cinco minutos no futuro, cinco minutos a partir de agora meu coração vai bombear como nunca o sangue pro meu cérebro, eu vou pensar nos laços entre minhas mãos, seus olhos e a energia dos terrenos baldios. Daqui cinco minutos vou doutrinar em minha mente a lição da vida dos terrenos baldios, suas multidões embaixo das folhas, a vida baldia e deslacrada, seus olhos. Daqui cinco minutos vou conectar a minha vida ao fluxo de um rio, de um terreno baldio, cheio de pequenas folhas e flores e buracos de insetos, cheio de vida que verte. Em 5 minutos minhas veias, minha língua, seus olhos, meu semblante inerte. Eu que floreio meus olhos com ouvidos cheios de lágrimas. Contingente de vias soltas, água que inunda o pátio, o prédio, o terreno baldio. Em cinco minutos, farei uma previsão, de que a água não se contém por suas bordas de cimento e as borboletas são fadas que significam anjos e morte doce de rio verde, assustam predadores, gritam cores e flanam seus lingotes de fogo. Em cinco minutos, entrei no vértice da minha consistência, na profundeza do centro da minha cabeça, ali onde as palavras se inscrevem num manto limpo. Pequenas sobrevivências em néctar humano, caldo doce, aveia de plasma de corpo, coração de alma, língua de sol. Frio, ectoplasma, coronária, canária, livida, pia veia que bombeia, pia, há cinco minutos, pia o sangue na terra, pia no chão. Eu, daqui cinco minutos conectei todos os terrenos baldios, e sua energia baldia, e o vento que rompe as suas cortinas. Em cinco minutos conectei neurônios que nasceram em hemisférios opostos, eles giram sincronizados no ar, distantes, e não existe palavra pra descrever a força que os conecta. Linhas são sonhos. Retas são sonhos de pontos, letras são o hálito, bafo de sons, sejam compostos ou puros, jipe jipe jipe jipe jipe e em cinco minutos não há mais tempo e o tempo todo existe em cinco minutos, mesmo que não exista tempo ou minutos. Um lugar que ninguém vê, um canto desabitado, sem memória, borbulhando vida ainda desorganizada. Meus olhos que só veem o oposto das cores, do reflexo do brilho do escuro. Cinco minutos de um relógio, de uma música, da vida de um micróbio, eu conecto o som daquela água cheia de esgoto em minha estação de tratamento, minha mente, lua vermelha com lábios de céu, escorro lichia em meus barros, languida em meus braços, esguia de barro, lar do meu céu do meu lar doce mel. Meu filtro se suja de alma tão limpa. Onde no ar há de haver limpo, poeira de esteira, loja de plástico, prédio de barro, escondido no canto, no feltro. Aquele pássaro paralisado no chão, perto do rio, bica na água, não tem peixe nem água nem bica nem barro nem pássaro, eu vi daqui 5 minutos, eu vi daqui cinco minutos um homem morreu, um carro bateu, um som de inverno na televisão, uma menina lembrou de 5 minutos atrás, 5 minutos antes de agora, 5 minutos na história, no mesmo lado do mesmo canto do barro daquele terreno baldio que ninguém vê, ninguém olha, onde ninguém sonha, e ele se deforma e desdenha, desenha principalmente de noite, quando o escuro fica úmido e fundo e o ar fica com um cheiro de orvalho de todos os sonos suspirados nas crinas dos cavalos, o terreno desorientado, corrompido tão doce azulado no escuro. Pulmão. Em 5 minutos um cigarro. Uma escolha, meu filtro de barro de água cristalina, cheia de lodo, estômago estremece, hormônio de máquina, um homem que injeta morfina. O tempo são passos, clima, horas são vácuo, horas insipidas, incolores, águas de cheiro, em 5 minutos eu me deito naquele chão de baldio de um terreno, sinto o frio do chão nas minhas costas e o céu é infinito em uma abóboda e conecto todos os terrenos baldios, cheios de gatos e seus olhos e os anjos planetas meus sonhos, terrenos, baldios, ervas do mato da rua que tem vida e o chão é mesquinho e minhas lutas e luas definham, lamparina, luz de vaga-lume, nectarina, trêmulo, opaco, textura dos olhos, do verde cor de mato, cinco minutos em sua boca, dentes de mato, língua verde de gato. Os olhos de gato. Em cinco minutos todos os gatos pararão no ar 5 milímetros do chão, 5 minutos daqui, 5 milímetros do chão, 5 minutos daqui, 5 minutos do cão, 5 minutos dali, e nenhum homem vai notar, nem régua ou fita métrica ou a divinação das incertezas insinua em poças de chuva antiga, e ninguém nunca vai saber ou saberá, aquilo que está entre a terra a 5 milímetros e o céu, em 5 minutos, eu previ o futuro de 5 minutos daqui, nada vai acontecer em 5 minutos e no nada existe tudo, eu pulso, 5 milímetros daqui, cinco minutos do chão.

O discurso do vampiro

12/12/2015

Eu posso te impressionar, escrever mil palavras, sem travas, cem larvas
decepcionar seus olhos que choram lágrimas escravas, malárias, internas, suas águas
cisternas, repletas de ventos das noites dos campos dos lírios dos mantos
e eu centrifugo, repito, giro me escondo e nunca respondo
ou leio, decifro e devoro e agora você precisa de mim e sem mim não há nada
eu posso te decepcionar, escrever mil palavras, sem travas, sem falas
eu falo rápido e me estrangulo nas mágoas, ansioso em escalas que nem mesmo cálculo
não, não tenho medo do escuro, não, não me escondo em cima do muro.
eu sou o escuro e ilumino o caminho com a minha chama interna, lanterna em poços tão fundos.
eu tenho medo do escuro, já me escondi no seu fundo, eu amo meu muro e eu fodo meu muro
eu posso te deixar sem ar, te dissecar na cama cheia de plantas, um mar, uma flora a sua lábia maravilhosa o encanto no meu duro desejo, um cisne raivoso de pernas e pétalas. Ensejo, manejo, destruo, não há glória no mundo.
Teu arco, uma nota, um veneno, um eclipse.
Eu na madrugada te faço mostrar para mim o teu mundo, confia em mim que sou ímpio, sou puro, confia na luz que te cega e te anula. Confia no corpo do outro da cama, sou lama te faço a perfeita no barro.
Te quebro, te esqueço, eu choro de solidão e te odeio, eu te amo te quero, não quero, me inflamo, meu órgão te quer minha alma quer outra, a divisão precária de um sono e de um sonho, qual cor de som, de lava, de lua em papel cortado. Luz verde de som.
desejo vinte e quatro todas elas que uma nave branca venha repleta de olhos e me leve pra lá, onde os sonhos são flutuar no teu passo. Calo, não falo, minha palavra reverbera vazia em teu colo.
eu durmo. Eu choro.
Sou eu contra o espelho, o conflito irritante de um reflexo inverso.
ah, eu me esfacelo. Te convenço de deus, da crença de si mesma, te convenço. Te salvo.
Minha empatia é a tua saída, e meu desprezo a tua queda.
Eu me anulo e é pra isso que serve a presença tua, porque sozinho existo demais e teu buraco é minha selva.
Eu me anulo e me sinto bem como a chuva, a poça que revela desejos do céu
já me esqueci do intento, isso é bom, você tem olhos de louca
eu leio suas bolas escuras e marco em mim minhas bordas escuras
Sou o território de seu mapa e suas escolhas são meus caminhos.
Eu dono do vasto campo dos ruídos, ruínas e sinais, que tudo que falo vira campos de matéria organizada, dou minha palavra ao vento da chuva da tempestade que leva em raios a minha profunda analogia ao cosmos.
eu que não quero existir
rompi o lacre da tua boca
engoli tua saliva e já chove em mim
e eu quero sentir sem ser eu
lavrar em meu rosto a cara de um anjo outro diabo distante e escuro
tudo o que se é de uma vez, explodir pra nunca ter recesso, hiato, tempo precário, perdido. A vida é uma trilha cheia de buracos
estamos descalços
vê que o sol se apaga e explode em mil anos e já estaremos mortos
e eu vou ser você e você será eu
E seremos um, que te importa agora seu individual?
seu sujeito de direito de verdade, acertada, legal, dívida e culpa em tua cabeça pequena?
eu te convenço, parâmetro de posse, vampiro de sonhos, dentes de alho em tua boca de ferro que me mastiga,
eu amo isso.
eu amo o triturar dos dentinhos polidos, riscados de ranger, ver que minha força é tua fraqueza e minha fraqueza a tua força.
Deixa eu tirar fotos da sua energia escura e colar no mural da minha cama
meus dias são o sono dos anjos que cessaram de andar invisíveis atrás de homens incompetentes.
eu sou teu dono porque seu vazio preenche o meu buraco no peito.
Eu ressoo em suas paredes, um pesadelo de rosas queimadas em um dia ensolarado, lambi sua cara em um anjo duro na pedra de um cemitério. Comi tuas unhas enquanto dormia.
Tenho medo do seu sangue, ele me mostra sua carne e vejo um coração que pulsa.
eu ressoo nessas veias e me perco.
Querida, te peço, acende uma vela por mim que eu morro por ti
não fala isso eu te amo,
mas eu só erro na vida, te esqueço te deploro
não fala isso eu te amo,
não fala, só fica.
fica,
leva tudo
de mim
leva
tudo.

ensaio sobre a dádiva

12/11/2015

Eu construí um altar para você.
Mas nem sou santa, tampouco morri.
Eu quebrei essas leis para você.
Eu sinto quebrar no ar
uma faca, uma bússola desregulada que mostra o meu lugar
um espelho manchado lhe cai bem meu bem
e a ferida curada no álcool
e minha mente poderia ser mais minha
e tão menos sua
a luz matutina mas é um brilho de lua.
O fogo é real, e o gelo também
como o rei e a rainha
que se amam no topo de um mapa
uma trilha do ouro no território
uma caixa velha de ferro, um pata de aranha quebrada.
No meu altar tem portas pra você.
Mas eu não sou casa, tampouco morada.
Eu criei novas leis para você.
Um jardim de flores secas que nunca caem.
Um conselho de arcano
o circuito nunca fecha se eu não fecho os olhos
Ali tem nebulosa e um toque suave, molhado
vento e luz e sou surdo, sou tudo.
Vibram e pestanejam os olhos são ilhas
em rostos de água
cartas que escrevem sozinhas
traços que descrevem seus passos
moram na minha cozinha, largos, no pátio
na praça das loucas na esquina
ergui um laço de vento, nas costas de um tronco
eu que mordi as folhas verdes,
na janela o cavalo fugiu, pra outro campo
esqueceu dos meus olhos do mato
verde, verdinhos caídos
pestes de pura água benta
que a estática da tevê benzeu
bocas que se mordem sozinhas
livres de suas ilhas sem margem, os rostos na esquina.
Eu criei sementes que secaram no chão
fiz enchentes em seus braços, suas mãos.
Mas eu que sei das bordas, dos espaços de mim.
Tampouco comi do seu pão.
Eu criei novas leis para nós.
Eu falo que escuto e a voz retorna opaca eco vazia
oi me responde sou eu
eu criei você que sou eu que sou eu.
Eu compus um mantra para você
Mas não só repito, me expulso, me extingo, tampouco paraíso
os últimos fios de cabelo em um canto tive coragem de jogar no lixo.
os resquícios.
Minha alma não tem preço fixo, hoje troquei por um cheiro,
amanhã já vale um milhão, cordas de relógio, frutas
um chão escuro, um abraço de velório.
Código de homens espúrios
grita a velha louca na esquina, já vão todos pro inferno?
Já bebi os espíritos, estou cheio deles
de mim e do resto só há um vasto caminho.
Não rio nem choro
nem sei como assinar meu nome
eu sequer existo quando estou longe
se você mexe lá no fundo sobe um cheiro de cobre,
você se sente como um inseto quando acorda
você reza uma ave maria e se ajoelha na beira da cama
mas seus joelhos não sabem rezar
a fumaça das velas faz mal
caí um pedaço e seus olhos já não sabem mais me pedir, eu já vi.
Eles querem me devolver no setor de trocas.
senhor no céu tende piedade de mim
que jaz na ideia
e eu não sei o que falo
o meu querer é uma fraca chama fria
que eu desenho como um vulcão em que jovens se suicidam,
quentes como Empédocles, o deus da lava, fogo de pedra.
gosto de ver eles pulando dentro de mim, seduzidos pelo brilho do inferno.
Minhas moedas tem a cara de Eva.
o gosto do pecado é o cheiro das ervas.
Deixa que minha língua me leve
eu que sempre gostei dos anjos porque são alados
voei nas costas de um em um sonho acordado, mas o alarme tocou.
os anjos não tem paraquedas
lançam do abismo suas flechas isentas de tudo que é humano
corta meu peito sem ver, a espada de um querubim de asas que ruflam macias
vários deles rodeiam, giram, inexpressivos
acordo de pé e são todos morcegos
mordi um que agora goza a mortalidade:
a morte agora me espera, eu quero lamber a boca dela.
E se o sangue já para
é melhor tomar todo antes que vire pedra
A gota de orvalho já em queda
eu fiz tudo para você, sou eu mesmo, toma o presente, não faça desfeita.
não deixe que a fé seja feita de palavras vazias.
a luz matutina mas é um brilho de lua.
e tão menos sua
e minha mente poderia ser mais minha
e a ferida curada no álcool
um espelho manchado lhe cai bem meu bem
uma faca, uma bússola desregulada que mostra o meu lugar
Eu sinto quebrar no ar
Eu quebrei essas leis para você.
Mas nem sou santa, tampouco morri.
Eu construí um altar para você.

o enforcado

09/11/2015

Dissolvo em mim a impaciência
o contorno da ânsia e da vontade
o desejo de tocar a onisciência
um amargo pintado de saudade

Pendurado pelos pés nos teus pés
arrasto ondas de uns olhos escuros
eu só vejo das horas o revés
meus dias são grandes vastos muros

Já esqueci que o tempo não esquece
eu que esqueço, me enfraqueço
não perco nada e tua mão me fortalece

A torre

16/10/2015

A minha casa é um lugar seguro, é onde eu durmo, acordo, me limpo.
não entra em minha casa quem eu não quiser.
Os muros são altos, as grades reforçadas, os arames contorcidos, os olhos do porteiro são atentos,
não há quem suba nas trepadeiras sem que o alarme estrague uma variedade de sonos.
Na minha casa o tempo passa como um ladrão, com passos curtos.
A fachada é limpa e as árvores podadas. Tem lustro nos móveis as luzes nunca falham,
minha pia tem água quente e fria. Meus pés pisam um chão liso mas firme.

Frio e doce.
Minha casa é meu templo e seus espaços são meu contorno. A moldura do quadro central de um dia muito quente.
um útero de louça, o castelo de um rei distante. Minha casa é um lugar seguro.
eu faço minhas contas e olho pro dinheiro, vejo suas dobras, penso nas mãos e bolsos em que as notas já passaram. A linha quase transparente da nota de cinquenta.
A onça.

Na minha casa, meus segredos. A chave do cofre, o pote com ervas venenosas. Um candelabro velho e um computador com luzes de amnésia.
Fios de nylon com sangue já duro. O passado em cantos limpos,
minha casa é meu cofre, tem jazidas de energia roxa em cantos escuros. Tem portas nas paredes que não se pode ver.

Tem eu e minha mancha na parede.

Minha casa tem tapetes de enxovais, de pedras preciosas. Um sabonete russo e uma pérola de um mar distante. Conchas em baús, tenho mais de cem tesouras. As luzes laranjas ilustram o teto de um mapa do céu, que é ele mesmo em outra escala.
Vi espelhos em um canto, mas confundi ser eu mesmo a minha imagem.

Eu brinco nos corredores desta casa.
Minha casa é segura, selei mil portas mas deixei que todas tivessem a mesma senha.
Às vezes eu penso no escuro. Em como só se está sozinho em uma jaula. E mesmo assim, a casa reverbera tantas vidas.
Tem o cheiro e cabelos delas em linhas e envelopes, presos em agulhas, em paredes mofadas.
Tem baratas na minha casa. Tem formigas no sal, pedras no açúcar, e pássaros já se mataram em minha janela.
meu relógio não funciona.
Todos os dias as luzes dos anjos fazem um anel de ouro em minha cama.
todas as noites converso com homens mortos e me apaixono por suas ideias.

Um dia eu olhei para o globo terrestre e tive uma ereção.
Minha casa é minha, grande, meu corpo, um isopor.
que bela casa, que tem portas e janelas meu senhor. Foi ele que me deu.
as velhinhas com olhos grandes e chocados.

Quem deu a casa ao senhor? Foi o Senhor?

O senhor me deu.
A minha casa tem o sono de elefantes, restos copos quebrados.
a minha cama eu sinto o cheiro dos teus olhos
a minha casa sente a febre dos teus ossos
e sussurra em manchas e cortinas
eu sei de tudo que acontece na minha casa
as moscas são minhas inquilinas
os ratos vendem minhas mesquinharias para velhas falidas

Eu odeio porões.
são muito porosos.
entidades estranhas
muito perto da terra
mas tenho um porão
um belo portão
um buraco escuro
onde eu entro e me escondo
me deito quente no chão
eu me distraio no meu porão
eu jogo com as cobrinhas da terra
as minhocas
os canos
matilhas estranhas,
meu banheiro tem cheiro de rosas
mas tem um suspiro que vem meia noite da janela
não sei se comunico à imobiliária.

Meu deus tem a sua casa. A minha sou eu.
Meu corpo tem velas quentes

se eu queimar minha casa pra onde vai o espirito que inventei?
a priori dos espaços
não vem aquela enzima
que domina a alma dos porcos
em noites de lua cheia.
pra onde vai se eu queimar?
acender uma chama e ver ali nos cantos os fungos e vermes acordando

O que há meu senhor? Algum problema?

Vou queimar o mundo de vocês, porque me arrependo de ter criado tal humilde vergonha.
Não nos queime ó senhor, seremos eternamente culpados diante a tua obediência.

Que se faça a luz.
eu sou fogo
minha casa sou eu,
fui comprar querosene e esqueci as roupas no varal.
os fósforos acabaram e já não encontro a gasolina.
onde estão os cigarros afinal
naquela mobília, debaixo daquele corpo?
tinha esquecido que você tava aqui
você sempre esquece de mim mesmo
desculpe eu não estava aqui, mas estava na casa
que bom que você não saiu
eu nunca saio
é verdade
eu não quero sair. Você viu meus fósforos?
no banheiro, inclusive não entendi porque.
pra tirar o cheiro de merda.
claro, que delicado da sua parte.
os fósforos.
a minha casa tem um calor redundante que consome todas as moléculas ao mais simples grau de carbono.

de desejo e entropia

27/04/2015

Meus escapes estão cheios
de válvulas
abertas laudas brancas
de meus sonhos luas cheias
no meu prato, seus cabelos.
Minha língua perde a pele,
dos olhos que não tem cheiro,
e as marés anseiam
afogam de desejo,
aguardam a luz, permeada de desgaste.
que tudo se desmancha,
desorienta
e os ponteiros são talheres.
Sinto no escuro o gosto do seu tempo
afoga em meus cabelos
Distante inda tão plena, submarina
do meu encanto, restou tudo de mim
de cores reservadas
em pura seda, o cheiro do suor do orvalho
a folha da tua mão,
os dedos acolhem dentro,
internamente a lava inteira desce
pelos canais que levam sangue
de pedra e fogo o vazio se integra
do ruído a fina outorga do silêncio
a sintonia que pensa invisível
pelo ar rarefeito da rotina.
Eu respiro de novo,
de centenas em centenas
e anda a sombra à revelia, dos meus passos.
Se eu já quebro, me despeço,
não há nada mais a fazer nesse espaço.
não há nada,
do que me reservou tal singelo laço
amarrando firme braços nos meus braços
Tem muita água nesta terra
eu me afoguei em teus vários lagos,
dormi vazio sobre meu lastro,
Não existe o mundo além de mim
sou o universo e erro em minhas estradas,
até que tua boca me reserve o fim.

Pathos

10/03/2015

Eu vou repetir seu nome, do som à borda.
Agora verbo, não significará nada em meus ouvidos
Compus em mim o mantra da sua sombra.

Eu vou fazer o mesmo com seu corpo,
Enquanto te fecho em si,  nos teus poros, com alfinetes
Bonita no éter, no vazio do sonho, a minha vinheta!

Vou destituir de sentido a sua boca e suas palavras
revertendo seu sentido às formas primarias
vou talhar sua imagem no buraco do meu eu
e profano em meu método,
te separo de mim,
tua vida é agora substância alheia,
translucida, feita de areia.

é assim que falho e ganho
assim que o beijo não é mais tirano
e eu mesmo entre ser e não ser,
não tenho tempo a perder.
E depois de lavado o meu corpo e mente de ti
eu renasço de nossas cinzas misturadas
e tenho incrustadas em mim as cicatrizes de outra época.

Delas me visto como da pele de um animal.