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Janelas

20/12/2011

Por todos os cantos, nas fábricas, ruas e rumos, um bafo quente regurgita, exala entre os paralelepípedos, um sopro de vida, de pedra, pulmão inflamado, ar cinza de uma chaminé, vermelho de batom que transcende as bordas da boca, cheiro volátil de álcool nos perfumes baratos, deixando um rastro de verde ou vinho, botas de mulheres, marcham, negras entrecruzando os saltos dos soldados, no choro dos olhos de cebola o sangue de acidentados e crianças com joelho ralado, vísceras amargas que doem de uma emoção forjada, demasiado falsa, porém turva, inacabada, deixando uma esperança a se concretizar perante a falha. Sentimento pálido, como um rosto apavorado, um coração sem viço, visgo, goma, desacelerado, corrompido, descabido, em si mesmo desacreditado, o sangue da víbora, os olhos venenosos, as mãos tremendo, os sorrisos das enguias na escuridão, um trocar de olhos, sacoleja, as rodas sob as molas continuam, não importa, nada existe, a tristeza defeca nas olheiras, um ácido doce, onde se banham na enxurrada como que ratos lindos mordiscando. E de repente volto a tudo, é branco, vago o mundo, esvaziado, os teus olhos, cabisbaixos, grandes, jabuticabas, e depois viro, rápido, espero que nunca mais veja, os seus olhos, os seus olhos, o pescoço anseia por virar, meus olhos tem sede dos teus, o pescoço forçoso se contraí, as pessoas hão de notar as veias saltadas, quando se cruzam, como cães na madrugadas, se soltam logo menos, com um choque de medo, nunca mais quero ver seus olhos, seus olhos. As palavras pesam, amarradas em conjunto, emboladas como um móbile esquecido, penduradas no topo do céu da minha boca, empapando a língua de excrementos e pulsões estrangeiras. O movimento borbulha os ossos, ouça a soma se conjurar, aos tambores, e as explosões que queimam nos tímpanos, em auto falantes um tanto estourados e meus olhos fogem aos teus, o branco vazio inexpressivo, impresso no reflexo do ônibus que chacoalha, os velhos seguram nos canos de ferro amarelos, e noutra mão permanecendo um lenço, ou uma bengala, vejo a catraca, onde cada um soma um número, verde, menos os velhos e as crianças, um por todos, passam lentos e pensativos (todos por um), vejo bolhas de sabão, orelhas sinfônicas, e lábios reunidos na rua, já disseram que a glória da vida é sentir um estômago inflado de mil borboletas em constante metamorfose e depois cortar veemente as veias, em rotos braços decompostos em feridas, na massa corporal leprosa dos amantes. Os olhos se desencontram em degenerescência, as bocas se movem, as línguas absorvem em molho a saliva, as línguas absolvem meus olhos perdidos, o calor no peito e nas coxas e as carnes que se espreitam em vãos de espaço, se esgueirando por entre panos frios, o suor fluindo dos poros, o suor, os braços, abraços, ela olhou pra mim, me avermelhando ridículo num tom de cor das frutas precocemente amadurecidas, estufadas em sacos plásticos e viciosas de serem mordiscadas em bocas úmidas, articuladas e mal lavadas. Meus olhos fugiram como fogem os ratos, os teus voaram e voltaram como quem lê um livro, e nossas páginas foram escritas e apagadas e reescritas e rasuradas, com uma tinta, quisera, indelével, foram tantas vezes que me esqueci, olhei outra vez pro reflexo trêmulo da janela, uma miríade de passos, pó, fumaça, o neon apagado, sapatinhos de criança, uns pares de olhos vermelhos, rugas, unhas, coçadas, dentes amarelados baforando bolsas de fumaça, o odor dos lares, um crucifixo, do cheiro de naftalina dos bolsos cheios de relógio dos homens velhos, o tintilar de terços e o rigor da pressa, o caminhar, desde sempre acompanhando os olhos cansados, ou sonolentos, os cigarros contabilizam o tempo, o tempo dos condenados, o tempo da parada, do descanso, tentando enganar cada minuto de relógio, pra que sem perceber ande depressa, que ande depressa, que demore um século, nos teus braços, nos teus olhos? Procurei teus olhos, tinham descido, os teus olhos: tinham descido, ao nível do chão, o vazio ruidoso do motor, uma súbita brisa quente e sem alívio, os teus olhos desceram no ultimo ponto, acompanhados de teu corpo, na ultima esquina, o lugar vago, amarelo, restou triste.

2 Comentários leave one →
  1. 03/01/2012 1:22 am

    Poesia pura. Dá um pulo depois no http://garrafavazia.tumblr.com/ fiz esses tempos agora pra colocar as coisas direto do celular, pintou na cabeça eu jogo lá. Grande abraço.

  2. Aline Ulrich Link Permanente
    04/01/2012 7:46 pm

    Ainda fecho os olhos, mas gosto de ver seus textos, você é escritor.

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