Jardins murchos (rabiscos sobre a impotência)
Eu quero beijar o seu pescoço, atrás, quero te jogar pra lá.
Sempre quisemos procurar uma saída, um buraco onde se enfiar. Me falta o estilo, uma conexão, uma nuvem, que chove, serpente que ondula, ser uma aranha lenta e árida com meu corpo se tornando o medo, quero que vocês decaiam como que sem asas, depenados.
Veneno.
Eu quero desenhar seu pescoço, leve, com o dedo sujo, com carvão cheirando a amoníaco. E como fugimos? Das armadilhas dos folhetos, dos exércitos e das placas luminosas nos pedindo pra viver?
Eu e você
somos mais uma coisa, outra.
Somos fuga em nós, pontos de fuga na sua pele.
Porque você tem raiva de mim? Porque não suporta quando eu saio falando, minha ladainha, como se fosse vender meu peixe?
Você é insuportável.
Eu sempre soube, sempre foi meu segundo nome.
Mas eu te amo.
Eu quero beijar teu corpo, teu pescoço, teu tórax, teus peitos, tuas arranhadas peles. Você.
Porque me olha assim?
Porque eu quero te comer, com garfadas e serpentes.
ah.
E a saída, nunca imaginamos, estava em não fazer nada, estava em não levantar armas, porque sempre quiseram que levantássemos as bundas quadradas e amaciássemos nossos couros curtidos de gordura impregnada, quiseram que minha mão fosse a chave da fenda do buraco escuro. Meu olho é
caído.
Vamos deitar juntos e ver o céu? Eu quero beijar sua nuca, pra te arrepiar.
A minha mão tem uma pele enrugada, ela é grande e desajeitada, mesmo assim não tem força, ela também não é delicada, não é ágil, não é forte, não estrangula nem acaricia como se deve, minha letra é infantil, minhas pontas dos dedos são esverdeadas, minhas unhas sujas e comidas, elas te tocam, sua pele é lisa e suave, seus olhos delicados, sua boca abre sem jeito quando se distrai, sua mão é acentuada, acetinada, esta na minha, são como o atrito dos corpos, aqui não se pode ignorar, o atrito dos corpos, como diziam na escola. Sou canhoto, a preeminência do mundo é meu contrário, é assim que me fundei, e quero beijar seu pescoço. Minha mão é inútil pro mundo. Minha mão é um rascunho de uma máquina de rascunho e masturbação. Rabisco, hibisco, fluído, foi.
Um pescoço tem duas funções, é pra ser beijado e pra sustentar a mente.
Seu corpo nu fica belo quando escondido, porque eu preciso encontrar, e gosto de me esconder, sendo ridículo, e depois me encontrar, livida a válvula do meu coração se aperta e borbulha. Seu corpo nu fica belo quando constrangido e enrubescido, quero te entortar,
pra ver o quanto aguenta
Te escolhi uma roupa
como é?
É um véu
véu?
Véu.
Translucido?
Sim, como a teia da aranha.
Elástico?
Sim, como o nylon do tempo.
Meu corpo é o deserto, é também infinito e eternamente filiado a ação do tempo.
O deserto é obsceno.
Obsceno?
Sim, é a morte, a falta de água, a fome, o calor.
Então você não pode morar em mim.
Sou como os povos do deserto, e ainda tenho o véu que te dei, acalentando o calor da sua
pele e o frio da sua noite.
Você pode morar em mim, mas cale a boca.
(Eu não quero fazer um exército, meu deus, porque eu teria um exercito? Se a luta se empenha em arraigar valises de sangue seco, se entorto no vão da esperança uma espada enferrujada. De que valem as flamulas, o ufanismo mascarado guardado com as armas nacionais. Mais prefiro um buraco onde evado, uma flor murcha e enrugada, um quarto de ferrugem no meu copo de álcool. Ser como as formigas a cavar a terra fofa, não pisar nelas como se imitando as forças. Pra ir contra e ser a favor, tomar do veneno, te ameaçar, que vou te enforcar. Sou o corvo na carne massacrada, o sol quente queimando o doce amargo dos ossos no sol. Não quero ser rapina, enviuvada eternamente numa firme e séria expressão de abutre amordaçado. Não, a luta é quase que existir, sopro de lágrima, punho. Minha arma é outra, o que engorda, o que enfeia, o que quase não mata.)
Se você falar, quebro seus dentes. Pisque.
Uma vez sim, duas vezes não
(uma vez)
você me ama?
(uma vez)
muito?
(uma vez)
O fruto do meu desgaste é um riacho frouxo de palavras envaidecidas, mas tão pacatas, perdidas, as vezes desconectas, como sentimentos vazios que fluem dessas coisas que me diz, eu estive hoje envolto de maquinarias oleosas, me mandaram e apostaram que meu corpo não aguentaria, ameaçaram me enforcar com uma gravata, em fila vagueei por corredores limpos, subi escadas, forjei papeis, meu dia foi uma empreitada, a lei veio na minha caixa de correio, meu nome está sujo, o liquidificador será devolvido, sem ao menos lapidar ferozmente uma pequena fruta podre.
O que posso fazer com esse meu corpo acomodado e corrompido?
A janela parecia um filme, uma saída, finalmente, olhamos juntos, o mundo azulado, alegria é uma coisa indecente, e isso é bom, a indecência tem que ser escondida, guardada, a alegria não pode ser do jeito que pediram, porque todos queremos, é verdade, ser maiores.
Um vermezinho em uma fruta
“anseia consumir o mundo
tão maior que ele.”
Silêncio.
(Eu santo verti
prosaico o café da manhã
pra me acalmar
pra eu andar no corredor sem ter uma ebulição
como água, fervente.
diagnosticaram, amarraram.
Eu homem verti
o álcool e já era noite
pra me animar, pra eu rebelar
enquadra a minha causa
e traça fronteira
essa é minha casa
meu rosto tem um gesto
um caminho, onde preenchem as lacunas
de sentidos, saídas
enjaularam o meu rosto.
orgia, que é falsa
enrustido
se há um único rosto
é mascara intragável.)
Eu quero beijar seu pescoço, mas tem algumas correntes enferrujadas aqui, e não
entendo mais.
Correntes? Porque não as rompe? Estão ressecadas, seria necessária a mínima
força.
Porque faz assim? Sabe das minhas mãos.
O que tem suas mãos?
São fracas e grandes.
Pois então pode roer as correntes.
Meus dentes, meus dentes são frágeis, seria insuportável.
Fraco e cariado, então acorde.
Eu peço por um mínimo de silêncio em que me deito sobre você, espero não te esmagar, o silêncio envolve, emudece, desentorta. É uma fuga. Não devemos fugir, devemos olhar de frente e cavar as tocas dos demônios procurando os esquecidos, e ver de debaixo da terra as raízes das árvores centenares, e então sufocar o mundo com um estrondo, numa ciranda eterna, fluída e molhada de sonhos, a lua há de controlar nossos fluxos, há de demarcar nossas marés, há de nos guiar pela noite, por onde amar e em que camas. Há de se apagar e no escuro, somos todos iguais.
Os jardins se elevam à postura da lua
compenetrada, e pesada
as flores murchas resplandecem
molhadas de orvalho
dentro da gota não há luz
os jardins murchos ondulam ao vento
queria ser como um broto de roseira
murcho?
Sim
E eu queria ser um botão de rosa, não nascido.
Você é mais um espinho.
Grosso.
Meu corpo é um templo dos meus anseios, não deixo saírem de mim as posições, as marcas de guerra, as pinturas, que tatuaram em mim todos os dias em todos os lugares. Trancafiado algo como um espirito? Algo como uma luz interior, rodeada de clichés metafísicos.
Um corpo mudo é o que anseio, algo como uma fina linha a costurar meus lábios.
Porque você tem tanta raiva de minhas palavras?
Você nunca para.
Nunca?
Sim, você começa e vai, e eu canso.
Sei.
Então me fale você.
O que?
Do mundo.
O mundo precisa ser escutado.
Tudo que eu queria era beijar seu pescoço com meus lábios silentes, mas tudo o que seu cheiro me impregna, tudo, cabelo queimado, plastico puído, água sanitária, um pedaço de carne, o mundo me feriu, mas eu te amo.
Eu também te amo, vamos deitar em silêncio.
Tudo o que eu queria era forjar uma flor da matéria amorfa.
Vem, deita, vamos.
Tudo o que eu queria era um jardim repleto.
(o corpo deseja e anseia que suas bordas sejam corrompidas por bolores mundanos)

Fera. Fogo. E ácido.
elástico como o nylon do tempo… intenso