Melhores dias de nossas vidas (paisagem)
Ouvi dizer que a reitoria fora levantada sobre o solo sagrado de uma capela, onde o senhor dos escravos no passado se redimia por ter matado vários dos negros vagabundos que ele tando esconjurava a próprio punho, destroçados sob a força imperativa de seu chicote, tal comportamento era incompreendido até pelos seus amigos de latifúndio, quando veio a surgir a cidade, com seus prédios e a gentalha beata, o homem quase matou um mulato de raiva, que não ia dar as suas terras pra esse bandidos e prostitutas fundarem um bordel pros seus negros, que já eram vagabundos sem esse tipo pueril de vacilações, nesse ambiente cheio de almas doloridas e vagantes, surge o prédio da reitoria, no terreno maldito doado pela mulher traidora do dono de terras. Vadia, pode-se ouvir ressoar de narinas do fogo do homem, porém era naquela capela onde ele se habitava em silêncio, e punia as próprias costas com um chicote a base de metais preciosos e diamantes, não seria castigado pelo couro podre que batia nos escravos. A reitoria, com seus 25 caixas eletrônicos que piscavam feito caça-níqueis, e banqueiros exclusivos, bem como com a conexão direta com os gabinetes do governo e dos mexericos e fodeções de todas as instituições de fomento a pesquisa do país, ouvi dizer que a chefe do setor de incentivo à pesquisa de novas doenças e epidemias andou chupando o diretor do ala de armas químicas e fomento a segurança nacional, foi o que ouvi. Boiando por essa atmosfera indigerível de gravatas e perfumes franceses, misturados ao divino odor de suor sob o sol do sul do planeta, está o coração, a veia mãe dessa grande bolha de difamação, intelectualidade, vermes, sexo desprotegido, aprendizado, abortos ilegais, hippies, anarquista, nazi-fascistas, neo-escravistas, ruralistas, marxistas radicais, vegans, putas, freiras, pombas, defecamento e poemas de banheiro. Ouvi ali do canto que haverá uma discussão aberta sobre o estupro de uma menina, que foi queimada, o sorveteiro com olhos de macaco desesperado pensou quando as moças iam pro encontro, com suas roupas apertadas e curtas, com suas carnes à mostra “vão à caráter as putas”, das bocas inflamadas, com odores anti-sépticos, fluía uma enorme enxurrada, mirabolante e opiácea, saindo de tão belos lábios femininos. “Essa mentalidade machista e naturalizada de que as mulheres são meros objetos de consumo entendeu? Que vem do capitalismo selvagem e da sua mercadologia, é só você ver essas propagandas, e como a mulher sempre aparece, eu sou a favor da liberdade da mulher sobre o corpo dela” O céu amarelado fluía sobre a grama, onde em círculo um grupo fumava e se divertia pensando em insetos marinhos, “são grandes e azulados. Como uma daquelas moscas varejeiras? Sim. Isso é nojento vá se foder. Mas é verdade, são como ostras, são como varejeiras mesmo, e moram no fundo do mar, são fétidas, tem cheiro de uma palmilha de tênis usada por um ano por um pé purulento. Que nojo vá se foder. Bem vocês não entendem de psicodelia, os indianos comem insetos todos os dias e inventaram Shiva, e os mantras, vocês não sabem de nada. Um silêncio irrompe no circulo”. O professor Jacques Pierre de la… Interviu em uma discussão na mesa de aprovação de uma baixinha, cabisbaixa, gordinha, sem ter nem eira nem beira, permitiu que passasse, enquanto por traz de seus pensamentos, da sua nuca de onde os cabelos fugiam como um rato, e dos seus olhos purulentos e suados, e da sua calça onde surgia uma ereção, pensava num boquete daquela gordinha envergonhada, piscou pra ela quando ela levantou a cabeça, foi a oportunidade, ficou vermelha que nem sangue de virgem, foi o que ele pensou, a palavra virgem erigiu mais ainda sua pomposa barraca debaixo da mesa… “A epistemologia minha querida, é da origem social e intelectual onde vem o conhecimento, você precisa se certificar de saber tudo isso, para poder chupar, digo, chutar algumas bundas no dia da apresentação”
Ouvi no supermercado que a merda desses universitários empesteiam a cidade, fazendo os alugueis e tudo subir de preço, enquanto os papaizinhos ganham dinheiro nas suas fétidas cidadezinhas empesteadas de velhos, donde todos os jovens fogem em busca de chances, orgias e drogas, pra subir na vida. Os ônibus são cheios de jovens bem cuidadas que se agarram aos canos de metal amarelo, diminuindo a vida útil dos velhos que nem pagam o ônibus, e as empregadas e diaristas que limpam a merda, tem que vir apertadas, limpam os cabelos grudados no teto, os papeizinhos soft gozados dos sem-sorte, tem que pegar três ônibus para vir limpar as casas pomposas cheias de posteres de mulher pelada e inscrições de gente chapada nas paredes, são obrigadas a morar nas áreas mais distantes, onde o governo vem só de camburão, e onde se produzem em laboratórios arcaicos e donde saem as entregas das neurotoxinas emplastadas para abrir a mente, entregam com delivery, na porta de casa, pros jovenzinhos recém acordados. Porém são flores os olhos, a pele sedosa que desce do decote dela, são flores, quando ela bebeu aquilo, deitada no sofá da sala (Hendrix tocava no caixa amplificadora), ela fechou os olhos vermelhos e viu mil flores brotando no crepúsculo, por dentre fagulhas de luz e de cores de diamante, de calor e luta, conseguiu dividir na sua mente, e separar as ordens e as utilidades de cada um dos seus órgãos, lisos, conseguiu sentir o cheiro com sua língua, e ouvir com os poros do seu corpo que se abriam cheios de hormônio e suor, onde milhares de raios espectrais de luz viriam, numa matiz de cor que se formava em degradê, o deus hindu, com suas trompas de falópio eriçadas, roçou sua vagina, e enrabou todos as gotas que escorriam de uma chuva imensa, que se convertiam em água viva, um trovão de risadas irrompeu por sua garganta apertada, e por seus lábios abertos como uma fruta descascada, com as vísceras doces sobre a mesa. Num canto da sala um jovem, de cabelos oleosos, tocava um violão surrado, batendo em todas as cordas, em acordes que se seguiam numa sequência alucinada, em quanto virava os olhos para dentro e girava as órbitas oculares, soltando os cabos sanguíneos como a ponta de uma caneta esferográfica, e sua boca materializava em uma figura geométrica desprovida da ligação com Euclides, ou qualquer desses geometras, simplesmente era materialização do som que proferia, por sua cabeça, passavam polvos, com seus oito instrumentos fálicos, degenerando os óvulos não fecundados da sua amada. No centro da sala, imperava a dança de membros deslocados da ninfa superiora, com sua maquiagem borrada, que parecia um vazamento de óleo que produzia toda uma matiz de cores como um arco-íris amargurado, o vazamento de óleo em uma lagoa cristalina, desce a onda por seu peito, por sua pele, sua cor, onde se bordavam os apetrechos de seu corpo, sua mão tornada em arabesco, e sua boca lasciva e molhada, empapada, que se abria voluptuosa enquanto tocava os peitos por cima da blusa de cetim, eriçando-os, um mundo rasgado vazava sobre sua cabeça, em uma lampada de luz que irradiava focos de perdição por toda a sala, o mundo preso nos seus movimentos, a lua defecava seu encantamento em uma menstruação planetária sobre os solstícios metafísicos dela.
Ouvi dizer que o departamento de física vai produzir uma arma a Laser.
Lembra quando ainda eramos namorados? E assistimos tudo do Star Wars?
Lembro, imagine só o que acontece se isso sai aí pela rua, imagine só, armas a laser.
Lembra quando ainda transávamos daquele jeito? Queríamos sair pelados pela rua.
Lembro, imagine só, a carne queimada dos mendigos, mortos pelos fardados higienizando as ruas, e todos os nossos pensamentos ouvidos por censores, imagine, toda a maconha do mundo mercantilizada somente para os donos das multinacionais, está chegando, a inteligencia artificial, as máquinas de ler sonho, tudo isso feito enquanto despejamos de graça nossa informação, do nosso vício social, de nos mostrarmos, de sermos empresas a favor de nossa própria sede de sermos devorados pelos olhos dos outros, e colocamos tudo no computador, na rede, colocamos tudo que somos, onde fazemos, o que comemos, quem fodemos, enfiamos nossas porras tudo lá, pra eles saberem, com os olhos estourados, enquanto estupram os verdadeiros inimigos do estado em banheiros cheios de porra em quarteis generais disfarçados de bordel.
Quando estávamos juntos conversamos sobre essas coisas.
Sim, está tudo aí, uma porra de ficção cientifica chegando, uma porra de George Orwell entendeu? Uma porra dessas aí, tamo fodido, nosso inferno será o quarto 101.
Faz mais uma carreira e cheira, enquanto ela acaricia seus pelos do peito, e depois lambe suavemente seus mamilos “quando estávamos juntos ele gostava disso.”
No pátio e no gramado, guirlandas de protesto são colocadas, crânios de animas são decorados com outros apetrechos de cadáveres mortos, são os vegetarianos radicais, a ala cristã fica chocada, empunhando crucifixos e fantasias de pombos, sentam em circulo e oram, enquanto os cínicos bebem suco de frutas vermelhas, que lembra o sangue dos animais dependurados, os vegans gritam, fora hipocrisia, queremos anistia! Nas horas intermináveis de aula, onde as bundas ficam quadradas como que fechadas em molduras, ou formas, de gelatina, excrementos de nariz são colados debaixo das mesas, as bocas que abrem bocejando infinitas, ar pra dentro, ficam abertas como se fossem comer as nucas uns dos outros, o relógio marca o tempo, em que o giz se esfarela. A professora Anita anda com suas pernas torneadas e com seu calor interno de um lado para o outro, na frente de quarenta mais ou menos, seres que lhe absorvem toda a carne com olhos grandes e ouvidos de estetoscópio, ou outros que acham desprezível, enojam aquele balé de fórmulas e caminhos que se fecham em si mesmo “somos trabalhadores da mente, dos números, da carne mutilada por trás dos olhos” no departamento de medicina, um corpo fresco de morador de rua deitado sobre a mesa é cortado com estiletes (falta dinheiro pros bisturis), enquanto uma menina pequena e loirinha, de óculos grandes e olhos claros vomita num balde propicio, e seu namorado, grande e desajeitado, com sua massa corporal mal distribuída, com olhos psicóticos desfia a carne com precisão de açougueiro, o professor defende que o exercício prático é essencial pra obra de arte que é a constituição da medicina, de um intelecto capaz de aguentar situações desagradáveis, por isso mesmo deixaram de banhar o corpo ou de fazer qualquer higiene, para treinar o espirito daqueles garotos e garotas, eis o exercício da profissão. As empresas, grandes e estatais, querem nossa ajuda, disse o reitor, numa conferência, enquanto os adeptos da farra urravam em negatividade pela sua presença, elas querem nossa ajuda, e vão investir milhões em nossa instituição se abrirmos as portas (abrirmos o cu pros paus degenerados deles gerarem fetos de monstros, como aliens cibernéticos, produzidos por todas as vacinas e cosméticos testados em animais). Ouvi dizer que tem uma grande caldeira repleta de Coca-Cola no departamento de química, onde jogam os experimentos que funcionam errado, aberrações de ratos gigantes com topetes e dentes venenosos, cabeças que vivem por si, separadas dos corpos dos macacos, que vão roendo a própria gengiva, tentando se consumir, e por aí vai, outro boato é que um circo clandestino para homens terrivelmente ricos, que funciona em algum sub país africano, também se beneficia desse fato.
Era dia do acontecimento do ano, um caminhão viria, era dia de festa, um caminhão com alto-falantes capaz de impedir o sono de todos os asilos num raio de 10 quilômetros, na sua carcaça garrafões e barris de cerveja, vodca, e álcool puro em reserva era repartido comunalmente por mangueiras e torneiras e também por hidrantes estourados, era a festa da comunidade do campus, as pessoas da cidade, vendo suas ruas infestadas, acabavam por se infiltrar na festa, sendo consumidos e pisoteados pelas rodas em demasia dos carros grandes de vidros escuros, havia 36 ambulâncias de acordo com relatórios oficiais, um jovem com um megafone, proferia um discurso nos moldes dos proferidos nas orgias na áurea ascensão do império romano, a batida ritmada levava o pulso de carne, as ondas de frenesi elétrico em repetição se repercutia em ecos e devastando a calma, levando embalando o fluxo que se esfregava e se esfacelava em calor, suor, carne e fios de esperma, as mentes se esqueciam das fatalidades, a alegria empesteava os corações, o céu parecia multicolorido, era como se não houvesse mais aquela divisão geométrica e imposta de cada ser preso ao seu maldito corpo, sem conexão, tudo era conectado, uno, como uma máquina coletiva, com olhos extasiados que se reviravam, andava sem rodas, uma gigante lesma que andava apenas em pulsões, fluxos de músculo num uno e gigante órgão sem nome, deixando apenas o rastro infeccioso atrás do seu caminho, massa de peitos e carne, e de uma dionisíaca fúria que se contorcia de êxtase, a levitação foi inevitável, enquanto a nudez se tornava clara e suja e os corpos se interpenetravam, os restos de pessoas deixadas a dormir pelas calçadas tinha número incerto, e assim aconteceu até a manhã, enquanto as paredes ficaram melosas, e o chão exigia o sol para derreter a matéria humana que deveria virar asfalto, aconteceu até o outro dia, quando amanheceu e as mulheres e os que dormiam pelos cantos acordaram com um súbito interesse em conferir suas partes genitais, e os jornais anunciavam grandes números, as grandes empresas e todos os vereadores de terno e dentes largos sorriam, enquanto a carne agora dispersa em indivíduos fecundados ou não, rumava para o descanso dos seus corpos, aguardando o novo dia para consumir a quantidade diária de folhas verdes, seres vivos chamuscados em churrascos, líquidos de suas variadas formas, sonhos de suas variadas cores, carnes com seus múltiplos cheiros, anseios para os seus futuros daqueles bons dias que logo terminariam.
Infância
verde, terra, ramos soltos
frestas de luz e de refúgio
sob a copa das roseiras,
onde habitam os botões.
verde, terra e folhas secas
o corpo aconchegado
sem silêncio mas tão quieto
o pesamento, em roupas largas
verde, terra, ramos soltos
tesoura, martelo, parafuso
degrau frio cheio de lodo,
roda, enferrujada, chuva
chuva chega lenta e forte
da cozinha a mãe chama, vem
(o fogo arde), a chuva vem, vem
as pernas (quietas), se molhando
vai ficar doente, vem
vai ficar de cama, vem
mas a chuva também vem
grande como um mar esfaqueado
sobre a copa das roseiras
nuvens cinzas, chumbo escuro
sob a copa das roseiras
dente e chuva, riso e puro
Janelas
Por todos os cantos, nas fábricas, ruas e rumos, um bafo quente regurgita, exala entre os paralelepípedos, um sopro de vida, de pedra, pulmão inflamado, ar cinza de uma chaminé, vermelho de batom que transcende as bordas da boca, cheiro volátil de álcool nos perfumes baratos, deixando um rastro de verde ou vinho, botas de mulheres, marcham, negras entrecruzando os saltos dos soldados, no choro dos olhos de cebola o sangue de acidentados e crianças com joelho ralado, vísceras amargas que doem de uma emoção forjada, demasiado falsa, porém turva, inacabada, deixando uma esperança a se concretizar perante a falha. Sentimento pálido, como um rosto apavorado, um coração sem viço, visgo, goma, desacelerado, corrompido, descabido, em si mesmo desacreditado, o sangue da víbora, os olhos venenosos, as mãos tremendo, os sorrisos das enguias na escuridão, um trocar de olhos, sacoleja, as rodas sob as molas continuam, não importa, nada existe, a tristeza defeca nas olheiras, um ácido doce, onde se banham na enxurrada como que ratos lindos mordiscando. E de repente volto a tudo, é branco, vago o mundo, esvaziado, os teus olhos, cabisbaixos, grandes, jabuticabas, e depois viro, rápido, espero que nunca mais veja, os seus olhos, os seus olhos, o pescoço anseia por virar, meus olhos tem sede dos teus, o pescoço forçoso se contraí, as pessoas hão de notar as veias saltadas, quando se cruzam, como cães na madrugadas, se soltam logo menos, com um choque de medo, nunca mais quero ver seus olhos, seus olhos. As palavras pesam, amarradas em conjunto, emboladas como um móbile esquecido, penduradas no topo do céu da minha boca, empapando a língua de excrementos e pulsões estrangeiras. O movimento borbulha os ossos, ouça a soma se conjurar, aos tambores, e as explosões que queimam nos tímpanos, em auto falantes um tanto estourados e meus olhos fogem aos teus, o branco vazio inexpressivo, impresso no reflexo do ônibus que chacoalha, os velhos seguram nos canos de ferro amarelos, e noutra mão permanecendo um lenço, ou uma bengala, vejo a catraca, onde cada um soma um número, verde, menos os velhos e as crianças, um por todos, passam lentos e pensativos (todos por um), vejo bolhas de sabão, orelhas sinfônicas, e lábios reunidos na rua, já disseram que a glória da vida é sentir um estômago inflado de mil borboletas em constante metamorfose e depois cortar veemente as veias, em rotos braços decompostos em feridas, na massa corporal leprosa dos amantes. Os olhos se desencontram em degenerescência, as bocas se movem, as línguas absorvem em molho a saliva, as línguas absolvem meus olhos perdidos, o calor no peito e nas coxas e as carnes que se espreitam em vãos de espaço, se esgueirando por entre panos frios, o suor fluindo dos poros, o suor, os braços, abraços, ela olhou pra mim, me avermelhando ridículo num tom de cor das frutas precocemente amadurecidas, estufadas em sacos plásticos e viciosas de serem mordiscadas em bocas úmidas, articuladas e mal lavadas. Meus olhos fugiram como fogem os ratos, os teus voaram e voltaram como quem lê um livro, e nossas páginas foram escritas e apagadas e reescritas e rasuradas, com uma tinta, quisera, indelével, foram tantas vezes que me esqueci, olhei outra vez pro reflexo trêmulo da janela, uma miríade de passos, pó, fumaça, o neon apagado, sapatinhos de criança, uns pares de olhos vermelhos, rugas, unhas, coçadas, dentes amarelados baforando bolsas de fumaça, o odor dos lares, um crucifixo, do cheiro de naftalina dos bolsos cheios de relógio dos homens velhos, o tintilar de terços e o rigor da pressa, o caminhar, desde sempre acompanhando os olhos cansados, ou sonolentos, os cigarros contabilizam o tempo, o tempo dos condenados, o tempo da parada, do descanso, tentando enganar cada minuto de relógio, pra que sem perceber ande depressa, que ande depressa, que demore um século, nos teus braços, nos teus olhos? Procurei teus olhos, tinham descido, os teus olhos: tinham descido, ao nível do chão, o vazio ruidoso do motor, uma súbita brisa quente e sem alívio, os teus olhos desceram no ultimo ponto, acompanhados de teu corpo, na ultima esquina, o lugar vago, amarelo, restou triste.
Eu quero beijar o seu pescoço, atrás, quero te jogar pra lá.
Sempre quisemos procurar uma saída, um buraco onde se enfiar. Me falta o estilo, uma conexão, uma nuvem, que chove, serpente que ondula, ser uma aranha lenta e árida com meu corpo se tornando o medo, quero que vocês decaiam como que sem asas, depenados.
Veneno.
Eu quero desenhar seu pescoço, leve, com o dedo sujo, com carvão cheirando a amoníaco. E como fugimos? Das armadilhas dos folhetos, dos exércitos e das placas luminosas nos pedindo pra viver?
Eu e você
somos mais uma coisa, outra.
Somos fuga em nós, pontos de fuga na sua pele.
Porque você tem raiva de mim? Porque não suporta quando eu saio falando, minha ladainha, como se fosse vender meu peixe?
Você é insuportável.
Eu sempre soube, sempre foi meu segundo nome.
Mas eu te amo.
Eu quero beijar teu corpo, teu pescoço, teu tórax, teus peitos, tuas arranhadas peles. Você.
Porque me olha assim?
Porque eu quero te comer, com garfadas e serpentes.
ah.
E a saída, nunca imaginamos, estava em não fazer nada, estava em não levantar armas, porque sempre quiseram que levantássemos as bundas quadradas e amaciássemos nossos couros curtidos de gordura impregnada, quiseram que minha mão fosse a chave da fenda do buraco escuro. Meu olho é
caído.
Vamos deitar juntos e ver o céu? Eu quero beijar sua nuca, pra te arrepiar.
A minha mão tem uma pele enrugada, ela é grande e desajeitada, mesmo assim não tem força, ela também não é delicada, não é ágil, não é forte, não estrangula nem acaricia como se deve, minha letra é infantil, minhas pontas dos dedos são esverdeadas, minhas unhas sujas e comidas, elas te tocam, sua pele é lisa e suave, seus olhos delicados, sua boca abre sem jeito quando se distrai, sua mão é acentuada, acetinada, esta na minha, são como o atrito dos corpos, aqui não se pode ignorar, o atrito dos corpos, como diziam na escola. Sou canhoto, a preeminência do mundo é meu contrário, é assim que me fundei, e quero beijar seu pescoço. Minha mão é inútil pro mundo. Minha mão é um rascunho de uma máquina de rascunho e masturbação. Rabisco, hibisco, fluído, foi.
Um pescoço tem duas funções, é pra ser beijado e pra sustentar a mente.
Seu corpo nu fica belo quando escondido, porque eu preciso encontrar, e gosto de me esconder, sendo ridículo, e depois me encontrar, livida a válvula do meu coração se aperta e borbulha. Seu corpo nu fica belo quando constrangido e enrubescido, quero te entortar,
pra ver o quanto aguenta
Te escolhi uma roupa
como é?
É um véu
véu?
Véu.
Translucido?
Sim, como a teia da aranha.
Elástico?
Sim, como o nylon do tempo.
Meu corpo é o deserto, é também infinito e eternamente filiado a ação do tempo.
O deserto é obsceno.
Obsceno?
Sim, é a morte, a falta de água, a fome, o calor.
Então você não pode morar em mim.
Sou como os povos do deserto, e ainda tenho o véu que te dei, acalentando o calor da sua
pele e o frio da sua noite.
Você pode morar em mim, mas cale a boca.
(Eu não quero fazer um exército, meu deus, porque eu teria um exercito? Se a luta se empenha em arraigar valises de sangue seco, se entorto no vão da esperança uma espada enferrujada. De que valem as flamulas, o ufanismo mascarado guardado com as armas nacionais. Mais prefiro um buraco onde evado, uma flor murcha e enrugada, um quarto de ferrugem no meu copo de álcool. Ser como as formigas a cavar a terra fofa, não pisar nelas como se imitando as forças. Pra ir contra e ser a favor, tomar do veneno, te ameaçar, que vou te enforcar. Sou o corvo na carne massacrada, o sol quente queimando o doce amargo dos ossos no sol. Não quero ser rapina, enviuvada eternamente numa firme e séria expressão de abutre amordaçado. Não, a luta é quase que existir, sopro de lágrima, punho. Minha arma é outra, o que engorda, o que enfeia, o que quase não mata.)
Se você falar, quebro seus dentes. Pisque.
Uma vez sim, duas vezes não
(uma vez)
você me ama?
(uma vez)
muito?
(uma vez)
O fruto do meu desgaste é um riacho frouxo de palavras envaidecidas, mas tão pacatas, perdidas, as vezes desconectas, como sentimentos vazios que fluem dessas coisas que me diz, eu estive hoje envolto de maquinarias oleosas, me mandaram e apostaram que meu corpo não aguentaria, ameaçaram me enforcar com uma gravata, em fila vagueei por corredores limpos, subi escadas, forjei papeis, meu dia foi uma empreitada, a lei veio na minha caixa de correio, meu nome está sujo, o liquidificador será devolvido, sem ao menos lapidar ferozmente uma pequena fruta podre.
O que posso fazer com esse meu corpo acomodado e corrompido?
A janela parecia um filme, uma saída, finalmente, olhamos juntos, o mundo azulado, alegria é uma coisa indecente, e isso é bom, a indecência tem que ser escondida, guardada, a alegria não pode ser do jeito que pediram, porque todos queremos, é verdade, ser maiores.
Um vermezinho em uma fruta
“anseia consumir o mundo
tão maior que ele.”
Silêncio.
(Eu santo verti
prosaico o café da manhã
pra me acalmar
pra eu andar no corredor sem ter uma ebulição
como água, fervente.
diagnosticaram, amarraram.
Eu homem verti
o álcool e já era noite
pra me animar, pra eu rebelar
enquadra a minha causa
e traça fronteira
essa é minha casa
meu rosto tem um gesto
um caminho, onde preenchem as lacunas
de sentidos, saídas
enjaularam o meu rosto.
orgia, que é falsa
enrustido
se há um único rosto
é mascara intragável.)
Eu quero beijar seu pescoço, mas tem algumas correntes enferrujadas aqui, e não
entendo mais.
Correntes? Porque não as rompe? Estão ressecadas, seria necessária a mínima
força.
Porque faz assim? Sabe das minhas mãos.
O que tem suas mãos?
São fracas e grandes.
Pois então pode roer as correntes.
Meus dentes, meus dentes são frágeis, seria insuportável.
Fraco e cariado, então acorde.
Eu peço por um mínimo de silêncio em que me deito sobre você, espero não te esmagar, o silêncio envolve, emudece, desentorta. É uma fuga. Não devemos fugir, devemos olhar de frente e cavar as tocas dos demônios procurando os esquecidos, e ver de debaixo da terra as raízes das árvores centenares, e então sufocar o mundo com um estrondo, numa ciranda eterna, fluída e molhada de sonhos, a lua há de controlar nossos fluxos, há de demarcar nossas marés, há de nos guiar pela noite, por onde amar e em que camas. Há de se apagar e no escuro, somos todos iguais.
Os jardins se elevam à postura da lua
compenetrada, e pesada
as flores murchas resplandecem
molhadas de orvalho
dentro da gota não há luz
os jardins murchos ondulam ao vento
queria ser como um broto de roseira
murcho?
Sim
E eu queria ser um botão de rosa, não nascido.
Você é mais um espinho.
Grosso.
Meu corpo é um templo dos meus anseios, não deixo saírem de mim as posições, as marcas de guerra, as pinturas, que tatuaram em mim todos os dias em todos os lugares. Trancafiado algo como um espirito? Algo como uma luz interior, rodeada de clichés metafísicos.
Um corpo mudo é o que anseio, algo como uma fina linha a costurar meus lábios.
Porque você tem tanta raiva de minhas palavras?
Você nunca para.
Nunca?
Sim, você começa e vai, e eu canso.
Sei.
Então me fale você.
O que?
Do mundo.
O mundo precisa ser escutado.
Tudo que eu queria era beijar seu pescoço com meus lábios silentes, mas tudo o que seu cheiro me impregna, tudo, cabelo queimado, plastico puído, água sanitária, um pedaço de carne, o mundo me feriu, mas eu te amo.
Eu também te amo, vamos deitar em silêncio.
Tudo o que eu queria era forjar uma flor da matéria amorfa.
Vem, deita, vamos.
Tudo o que eu queria era um jardim repleto.
(o corpo deseja e anseia que suas bordas sejam corrompidas por bolores mundanos)
Velados
Eu existo envolto em véu, pintado de face
e eu que nunca ouvi seu choro, cismei em vão
eu que existo e limpo os vácuos com ferramentas de areia
e eu que nunca ouvi um sim, cismei que não
que havia no fundo um chão
que havia água em torcer um pano
um gole pra embeber, um ar pra me acalmar
Eu que resisto quase mole de tão torto
eu que nunca ouvi os ruídos das estrelas
eu que fluído fui em canos lodacentos, e voltei áspero e turvo
que sonhei que havia uma luz
em um túnel enferrujado
uma saída, um triz
donde respinga o suplicio de cada dia.
E saber que não há rumo
estrada fácil para doces pomos
que senão uma trilha cega, endiabrada e cega.
Eu que nunca ouvi seu choro.
Eu que choro em sequidão e lava disfarçada
eu que fluido congelei
na fumaça diluída dos sentidos
e eu que transgredi em sonho acordado
as fronteiras de nós dois, eu que nunca ouvi seu choro
eu que nunca gritei ao sorver do vento…
A resposta
Ele anda realmente estranho, eu não vejo naquele olhar algo do que tinha antes, uma luz, ele parece perdido, como se meu corpo não tivesse mais as sinalizações que tinha quando nos conhecemos. O Jorge vai trazer a resposta, também, cobrou uma grana, puta mercenário, mas a Mariana disse que ele é bom, ela já teve um problema desse e o cara resolveu, que final trágico o dela com o Horácio, isso me deixa com mais agonia, ontem ele não quis me foder, ele só deitou e dormiu, parecia cansado, mas não senti cheiro de mulher, se ele estiver fodendo outra eu vou pegar ele, desgraçado, tudo o que faço por esse homem, mas se não tiver o problema talvez seja mais grave, porque estranho ele tá, ele não fala direito, fica com o olhar perdido, meio vidrado, e isso me dá medo, me dá um frio, depois se eu procurar outro pra abaixar meu pelo arrepiado de madrugada, vou ser a vadia, vou ser a megera, que nem minha mãe, o pai naquela época era um belo filho da puta, depois a família caiu em cima quando ela largou dele e pegou aquele bonitão. O pai é que se fodeu, preciso ligar pra ele, coitado, faz tempo que não falo com ele, não sou uma filha tão boa. O Jorge vai trazer a resposta, já varri a casa, escrevi um pouco, o tempo não passa. Pelo menos não tivemos filhos, divórcio é coisa triste pra criança, apesar que já tá atrasada a danada, puta que pariu, só me falta engravidar do maldito traidor, talvez fosse bom comprar um teste na farmácia, mas não, duas revelações assim no mesmo dia e eu tenho um infarto, já basta o remédio da pressão, eu sou tão nova e já cheia de problema, que foda, eu ainda tenho bastante corpo, se for outra ele vai perder, deve ser uma magrela amarelada, raquítica, ou então uma gorda, só pode, ele disse que gostava de gordinhas uma vez, sempre soube que ele era tarado, e agora resolveu ficar no bar até tarde, tomar cachaça, coisa de vagabundo. Lá fora tem uns meninos jogando bola, podiam ser os meus daqui uns anos, a gente fez planos outro dia, ele disse que queria ficar comigo pra sempre, que eu era a mulher da vida dele, mas todo mundo diz isso, eu já disse isso pra cara sem realmente sentir, ficam com cara de babões esperando a gente dizer “também”, bando de pau no cu. Quando eu era menina nunca que queria me amarrar assim, ainda ter que sofrer essa espera absurda. O Jorge vai trazer a resposta, ele sabe o que faz, acho que é ex-policial, condecorado, e quem vai saber se não era também um salafrário, um filho da puta carniceiro como a maioria dos fardados, a Mariana disse que o marido policia de uma amiga gostava era de ver pedofilia na internet, deus me livre, como tem gente pra tudo no mundo. Mesmo que for pedófilo paguei uma grana pra ele, o Jorge vai trazer a resposta. Minha mãe bem disse que homem não presta, mas precisa ter um em casa pra instalar o chuveiro. É preciso abrir a janela, deixar entrar um ar que já estou nervosa, é foda ficar nessa, ou é tudo luz ou tudo merda, se ele tiver outra não vou perdoar, sempre dei tudo pra ele, tivemos as fases duras, mas a gente passou, eu sou dedicada mas também não sou escrava, não sou feminista também, é bom ser mulher e sentir o poder de controlar um macho, do meu corpo sabe eu, se homem não manda, mulher também não vai, e se ele tiver outra, que fique com a outra, eu que não vou ficar na fossa, arranjo outro, tem tanto homem no mundo, porque diabos eu acreditaria que um deles é o único na minha vida? Boto é um vestido com decote e vou pra luta. Se eu ao menos soubesse a resposta. Mas há também o outro caminho, o cara é um doce e tá na depressão, e eu que não percebi, ainda contratei alguém pra ir atrás, é bem provável, sempre teve uma coisa meio melancólica nele, nunca liguei porque sempre gostei, sempre tive uma atração pelo jeito introspectivo dele, muito charmoso, ele é um bom homem, bom de cama, quando não tá com aquela cara de merda de ontem, não faria isso comigo, agora que eu ainda me arrependo do tal do Jorge, imagina se contrato um pedófilo pra perseguir meu marido, que merda de mulher que sou, agora já foi, de qualquer modo a dúvida há de dissipar, já é quase hora, quase a hora que ele marcou, eu sou uma vadia insegura, isso que sou, será a ultima vez, assim que ouvir a resposta eu pago o resto que devo pra ele e mando ele embora, vou cuidar do meu homem como se deve, cuidar da mente dele. Se eu largar dele bem que eu podia fazer umas coisas que tenho pensado, vou voltar a sentir aquilo de ficar com alguém pela primeira vez, será que é isso que ele tem? Acho que sempre tem uma fase assim, eu podia fazer o que quiser, pego o emprego que a Clarinha me indicou, que ele não quis que eu pegasse, quem diria, quero ver sustentado duas mulheres, ganho uma grana, e faço umas aulas de alguma coisa, é melhor pra achar gente interessante. Bem que eu queria um… A campainha, puta merda, deve ser o Jorge, o olho mágico, é o Jorge, não está com cara boa, ou está só neutro? Será que descobriu alguma merda, acho que não quero saber, eu devia ter perguntado antes: você está me traindo? Mas quem garante que ele diria a verdade, se eu tivesse traindo também não diria, porra, to parecendo aquelas desesperadas que vão na televisão perseguir os maridos, vou passar na TV a tarde pra entreter as donas de casa, campainha, vou abrir. Boa tarde dona. Boa tarde. Teve aquela vez que eu beijei o marido da Marta, bêbada no quintal da festa. Pode entrar, já vou pegar o seu dinheiro. Não quer saber o resultado antes dona? Não. Teve aquela outra vez com o Rodolfo, do colégio, mas porra, eu gostava do cara desde os quinze. É essa a quantia não é? Sim, tá certo. Estou me sentindo culpada, se for verdade não vou conseguir fazer nada, não é o momento certo, a menstruação atrasada, vou sair chorando, se não for, pior ainda, porra. Bom, posso dizer, dona? Pensando bem só vai dar merda isso, eu não sei se digo pra ele não dizer, não sei se é melhor mandar ele embora. Você não pode dizer amanhã? Amanhã? Sim, volte amanhã por favor. Vai ficar mais caro. Eu pago, pode deixar.
