(Estou com um sentimento tão profundo e inocente que se demonstra na barreira ridícula do sentimentalismo nostálgico puro… … Eu quis de repente entrar num mundo solitário, porém mágico, de cores purpuras e amarelas que se misturam, eu quis… apenas um verniz do que quero dizer, representa minha visão do que era a infância…
Hoje, acordei e não quero a complicação do ontem, e do amanha, a complicação da vida urbanizada e modernizada, a vida adulta que fica batendo na minha cabeça (não eu não digo ser inútil e os mais abasbacados não precisam vir dizer que eu to usando o computador, que foi inventado por essa sociedade e bla bla bla), mas de repente a nostalgia ficou forte demais, o sentimento subiu ao caráter da impossibilidade de eu manter só pra mim… E preciso agora escrever desesperada e desenfreadamente tudo que vem…)

A preocupação do dia, da sobrevivência, não devia existir para os homens, devia ser tudo simples… tudo como num mundo feito por Syd Barret… Numa eterna partida de dominós num domingo de uma eterna conspiração cinza de dias chuvosos e amenos… numa eterna reinvenção de imagens absurdas que significassem o infinito na sua indefinição… Como os Cronópios de Cortázar, sendo simplesmente poesia no mundo… Como Barret criando elefantes efervescentes… Declaro inevitável que se unam esses maravilhosos sonhos de sonhadores pra que se derrube essa misteriosa miséria que habita o mundo…
é tão infantil querer o fim dessa merda… é tão criança fechar os olhos entre mãos… só querer os colos de mães… e é exatamente a criança que gostaria de ser novamente…
Observei surgirem da terra plantas dos grãos que eu comia, li quadrinhos de patos viajando nas Antilhas, acreditei em tesouros guardados em Alexandria, finalmente eu cri no mundo púrpura onde unicórnios e magos que desapareciam eram mais vívidos do que minha sala que rodeava a TV… eu tive esse mundo só pra mim… Todas as cores do mundo, todos os sentimentos, os cheiros, toda a infinita aspereza do lodo do quintal, antes de o simbolismo se abrigar em cada frase ou palavra… no final do sonho, no final do meu dia, no início da noite… Tive noites de insonia, noites de sonho, de descobrir os seios na madruga… antes que fossem apenas movimentos de sexo. Tudo parece banal agora pra mim, tudo o que faço todos os dias, essas redes de conversas repetidas, todo o nexo dos caculos, toda a esperança do futuro próspero, eu sinto desesperança de não sentir mais as cores como eram antes… eu sinto desesperança pois ela fugiu com o dia de ontem , fugiu com as provas que tenho que dar ao mundo. Não suporto a indiferença, o egoísmo usurpa minha cabeça toda nesse instante! Quero o mundo como era no meu umbigo de criança! E não é que o esqueiro se encaixa com o desenho da toalha, e não é que o pão é menos bom do que as casquinhas? Não é? Não é a canção de guerra que me faz ninar tão doce? Tão doce como a guerra pode ser com o sangue de crianças que não puderam nunca perceber as cores púrpuras e amarelas do meu sonho? Não é? Quero chorar como quis o Renato Russo ao pensar nos índios, quero chorar com os índios numa chuva imensa, numa imensa tempestade que leve num rede-moinho infinito o mundo pra outro universo menos amplo, menos infinito, para além do infinito, ao som de Comfortably Numb, em seu solo tão amplo e infinito, e onde estarão vocês? Todos morando no meu umbigo, meu mundo é tão belo meus amigos, meu mundo é o sonho dos sonhadores é o sonho dos sem nada, o sonho das misérias, é o lugar imaterial onde não há carne que não a que inventamos, é o mágico lisérgico natural, sob a chuva de uma primavera porteña, venha Borges, Piazzola, todos os argentinos, unimo-nos começando o novo sonho pela América Latina, vamos, vamos ao Brasil dos sonhos lindos dos mágicos redutos sonoros das vilas e dos lobos, nas entrelinhas infintas, vamos com Cortázar e Artaud num teatro mágico Hessiano, nos livrando dessa árida estepe, desses amargos símbolos ogivais da deformação! Deformem o mundo, numa tsunami de brisa cristalina, num brado genérico contra a adulteração do homem, do homem adulto, do homem…
Ah, eu não quero ser…
escolhi o não
agora.
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