Astrologia

Posted 6 fevereiro, 2010 by boldrin
Categories: Meus, Poesia

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Vai contra o signo
contra as estrelas
amarga o insolúvel doce da água da tua casa

Vai, exata na tua espécie linda
de insensata…

Salas vultuosas de pigmentos fortes
são teu templo de mágico ócio
impulsos contra a vida tão macia
que desajeitados seus membros se rebelam

e monocrómatica se descabela
porém linda prossegue, na luzsombra dos traços
já deléveis
porque a memória se perde toda
no vasto pano da tua pele.

Vai embora
simplesmente
e deixa frio
deixa sede
e fome

e aqui procuro uma parte que ignora
tua ausência
algo que permanente e passado
infantil, pouco importa, me socorra
dentro de mim mesmo

dentro de ti
que mora agora aqui,
sinto frio
sinto a água chovendo das estrelas
abarcando o meu destino

a água de nós que desencotrados
não cremos na mesma verdade
total e ilusória
sequer na existência
da mágia das estrelas.

Luz

Posted 6 fevereiro, 2010 by boldrin
Categories: Meus, Visual

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Minha primeira brincadeira audiovisual caseira.

All blues

Posted 23 janeiro, 2010 by boldrin
Categories: Meus, Poesia

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As 5 da tarde finjo ser três (3) da manhã
tudo fechado
eu estou fechado
indeterminavelmente
pra qualquer contato exterior
um elevador fora de serviço que não te leva as alturas
é isso
e me mecho como quem não sabe mecher e esqueceu
e quero flutuar aqui, no escuro, como quem esqueceu
são 3 da manhã
e eu gosto
da noite iluminada pelas frestas
noite branca essa
tenho vontade de dizer baby, foda-se
pode entrar, bate na porta se quiser
vontades, gestualistica de noite
vaga
mordam-me as questões
filosóficas
agora eu permito
dentinhos de relógio nos lóbulos de orelhas
arrepio
contorção de músculos
amanhece escurecendo nessa noite, o tempo é tão estranho
me ama noite
de noite
quente como um rabo de sol
sacolejando, dançando
burbulejando
gritos espasmódicos de entrega
é energia requintada essa
pura ilusão
Eu finjo que lá fora há milhões de lampadas acesas
constelações urbanas
anunciando os signos do livre comércio
não é que me aproximo de você?
o cenário é perfeito
fecho os olhos
parece que sinto o cheiro da fumaça
parece perfeito
não há lua
sinto a brisa seca da poeira
sinto o frio seco da noite
estou mais perto de você
a pele como que áspera e lisa, porque escorrego e me firo
estou longe
estou perdido, mas te encontro
algo me diz que a resposta ressoa em você
me deixa procurar?
com os dedos, com os olhos
eu não te machucaria por isso, não poderia, não vou te rasgar pra tirar a resposta
não há medo
é tudo ilusão
o mundo é nulo
deita no chão do mundo, vem
eu finjo que meu quarto é o mundo
e no mundo é noite
e na noite somos um
são seus dentes que me mordem
você é linda, é a questão pra minha resposta
a razão total da doença
finjo, que você é meu quarto
você é a noite, inseparavel do meu olho
somos o escuro
egofilicos, anonimos, convalescendo em nós mesmos
finjo que você é a ironia
eu quero
a minha inconciência
que ela tenha a tua cara
teus olhinhos tão escuros
pra eu dormir com eles
fingindo que sou eu
já esqueço a euforia
é hora da calma
de levemente me encarnar
voltar a encenar
abrir a janela
existe a fraqueza
não posso ignorar
vou esperar
a noite chega logo
vai ser tudo melhor.

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Pontes queimadas

Posted 21 dezembro, 2009 by boldrin
Categories: Meus, Poesia

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Pontes queimadas
nos impedindo,
regrando o afogamento
e a combustão dos nossos caminhos

Me encontre
escondida enquanto dorme
sonambulos dançamos passo a passo…
Cinzas que ardem sempre
caindo leves na água
dos dias que vão em vão
vagos, como quartos solitários
com os cheiros de noites tão longinquas
no tempo
quanto estamos no espaço

Queimaria as portas e janelas
e casas inteiras se me coubesse
deixar vácuo do inerte
mas são as pontes
que queimam, perecendo
são as pontes e assim choro.

Nostalgia

Posted 9 dezembro, 2009 by boldrin
Categories: Meus, Poesia

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“Quero voltar! Não sei por onde vim…
Ah! Não ser mais que a sombra duma sombra”

Florbela Espanca

I

Nostalgiatododia
liga a coisa noutracoisa
tododianostalgia
me esquece, me aglutina
me espalha, entre tecendo
minha triste certeza
faz de mim o que bem quer
o que bem desejajunto
des-junto
ahh, menina, olho de cobra
todo dia a agonia
nostalgiatododia
toda cosmogonia
me lembrando o sono eterno
o sonho eterno de um deus de pó de estrelas
o deus pó…
sou eu sozinho no meu pensarninho
no meu pavimentolado de ideias
tudo que crio é nostalgia
daqui a dois segundos
lembrarei de ter te visto
nos teus olhos um mundo que não me esqueço
teus olhos num sonho entorpecido
entorpetecendo minha memória
eu não me esqueço
do funesto
do alegre
solfejo levemente, cada sublinhar
cada escurecer, todo dia, nunca ver um mar
toda noite, anote
eu irei pra cama com teus olhos
impia, venérea nostalgia
minha mulher pra todavida

II

Alguém tira ela de mim
é a nostalgia, grudada como uma pele
é a cor de um dia, de um detalhe
tira ela de mim
que eu não aguento
é a memória, toda fria
e o desfalque, o passado, a virgem maria
é a memoria
tira de mim
eu não quero mais
meu dia é um futuro e um passado
é uma musica
uma nota
um milhão delas sobjulgadas numa composição volátil
a doença se multiplica por mil facetas de passado
e o cheiro se devaneia, por mil poros obscuros
(procurou uma alternativa, um chão verde e molhado, chovia, chovia como o mundo que escorria, e havia o musgo, era forte o suficiente, era necessário não haverem roupas, só sapos, loucos sapos saltitando na chuvisqueira molhada, e deitado no musgo, no lodo, não conseguia esquecer a si mesmo, era necessário, por um instante sequer, era necessário! chuva lave, não posso mais vê-lo assim)

O mundo sem ele
a mãe sem ele
a casa sem ele
as frinchas, os vácuos, os silencios
sem ele
os escurinhos do sofa, o debaixo da cama, os sons
sem ele
o inspido inodoro, o viceralissimo étero
sem ele nunca mais por um instante
branco, translucido
como o dedo de uma criança em útero ainda
ali já habita a nostalgia
(eu não conseguiria, eu não iria até o fim , é melhor nem falar sobre isso)
sonho sem ele
não habitar nenhuma mente, nenhum instante, nenhum sopro
a poesia sem ele
um exercio de mágica, nos reis de um castelo de cartas, no instante que elas caem
sem ele
(mas ele era o musgo, o mundo, a cor, o sapo, ele era o mundo, que não existia sem ele, como esquecer? lembrar é ser, ele é o mundo, a invensão de deus)

Sou o mundo?
tira o mundo de mim
tira deus de mim
tira ele de mim
que eu não aguento.

III

Leite branco
mãe madeira, fibra de carne materna
primeira lembrança de um fio eterno
triste cada solavanco
de alegria criadoura
(de onde surge o soprar mal cheiroso da rua de chão preto?
surge do esgoto escuro ou de um pobre matadouro?)
esperando as repostas
mãejedoura! lactea rosea pura
lisa carne e pele a ser esticada
até o limite pra depois voltar enrugada
(eu ví, vi a chuva chegar no horizonte! ví a chuva passo a passo, como um enorme gigante, e corri, e voltei pro molhado, e a chuva qual cortina presa nas nuvens, sorvia o ar, chovia no meu ser, na minha vida toda, em todo o meu dia, eu queria destruir belo como a chuva e não sabia.)

IV

escuridão
habita
sou a caverna
a pedra
e o escuro habitando
é frio
é gelado
e meu coração
bombeando
é quase coagulo
e minha mente
pensando
é quase macula
no respingo de pureza
na goticula de leite
nos meus labios
vilependiados
da dor escura
tão escura
de quase esquecer
de existir.

V
muito longe encontrarei
o túmulo brando da minha nostalgia
branco, como criança na barriga
envolta de vermelho
de sangue morno
de sangue inocente, casto
sangue fluido, sangue rubro
sangue meu, e dormirei
esquecendo a vida
abrupto
como ela foi

Coda

branco…
tira ele de mim

Instante – Conto

Posted 30 novembro, 2009 by boldrin
Categories: Continhos, Meus

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Se for um trote, me chama depressa
Tenho um tédio enorme da vi
da.”

Vinícius de Morais em “O falso Mendigo”

Marcos não vai atender o telefone, decidiu não ir na casa da mãe e não atender seus telefonemas nesse sábado. É verdade que estava de saco cheio de ir lá todo santo sábado e também é verdade que ele se sente culpado em não atender o telefone e não ir ver mamãe… Marcos sentia mais raiva da impotência do que da culpa e não atenderia o telefone naquele sábado.
Submergiu então no universo pequeno do seu apartamento pequeno, ei-lo: Marcos está sentado nesse universo, no sofá, e fuma um cigarro, na verdade, fuma muitos cigarros, desliga o telefone puxando o fio e serve-se de vinho num copo de requeijão daqueles com o frajola, fica sentado no sofá, com a TV de 14 polegadas quase desligada, uma tevê em coma, semi-silencio, leve chiado, moças semi-nuas. Ele não assiste, ele devagarzinho vai ficando leve e evanescente com goles de vinho.Rúbia acordou no começo do anoitecer… Sábado é coisa sagrada para Rúbia, ela dança numa boate nos dias com feira da semana e é verdade que não acha o trabalho de todo o ruim, mas aquela não é a Rúbia que ela realmente é, e isso a angustia a maioria dos sábados, e é por isso que ela não quer sair, porque sua vida é, de uma forma ou de outra, sair, e dançar num cano, dançar com batom e tudo muito vermelho, e depois vai ficando tudo pouco e continua sendo vermelho mais a cor da pele. Rúbia nesse sábado não quer sair, é verdade que se sente entediada, mas a vontade de outro mundo que não aquele é maior que o tédio. Ela não quer fazer as coisas de ontem, nem transar. Ela liga o videogame, e fica deitada no tapete, encostada a cabeça no sofá, café numa taça, ela bebe o café, e vence partidas de Mortal Kombat.
Marcos escuta rádio, e acha uma benção que se possa ouvir rádio quando trabalha, ainda mas na sexta-feira, sim, Marcos pensa já que não quer ver a mãe nesse sábado, mas não tem planos muito grandiosos pra esse tempo perdido, Marcos auxilia um relojoeiro, é uma relojoaria pequena, na verdade uma pequena salinha, forrada de madeira, com muitos relógios e todos são atrasados ou adiantados e quando parados são meio tempo atrasados, meio tempo adiantados e um segundo certos. Marcos pensa nessas besteiras enquanto o tempo não passa. Muitos relógios podem deixar a cabeça de um assistente um tanto quanto engrenajosa, ela vai engrenando-se, as vezes adiantando, as vezes atrasando e é a vida. Ele pega as chavinhas, tome, muito obrigado, os relojos tic tac, agradecem. Muito tédio para Marcos que na verdade trabalha ali por não ter tido muito outra coisa o que fazer, pelo menos ainda era jovem. Marcos sai as 5 do trabalho, e vai de ônibus para o seu prédio, fica vendo filme do Corujão até as 5 da manhã e depois nem lembra direito o que era, sonolento, deitado no sofá, presta atenção em como os pensamentos se misturam, não vai ligar pra mãe, alguém no apartamento de baixo chuta a porta pra entrar, já se esqueceu do filme que assistiu, relógios enormes no céu, ponteiros, dedo em riste, o relógio o chama de filho e tem voz de telefone! Mas daí já é o sonho.
Rúbia chega exausta as 5 da manhã, vir de ônibus pra casa, na sexta-feira depois de tanto dançar e sorrir, era cansativo, fumaça, óleo diesel, muito cansaço para Rúbia. Quando chega em casa com mãos cheias de coisa, chuta a porta pra abrir e não liga muito ao pensar que pode acordar vizinhos, tira a saia, tudo bem vermelho e o sapato que já tava nas mãos, vai pra longe longe, põe uma calça e dorme rápido.
Jogar videogame era o que ela sempre fazia, sempre que tinha sábados como esse, de ficar em casa mole mole, fazia parte da nostalgia infantil, fuga do mundo trabalhoso, é verdade também que ela cansou e quis tomar uma cerveja quando começava de relance no horizonte a cair a noitinha, e foi isso que ela fez, tomou mais um busão que tornou seus olhos em olhos diesel, e chacoalhou até uma rua da cidade, e lá entrou no bar, Marcos sempre achava ridículo quando saía de casa pra ir no bar e ficava vendo a TV, pensava em jogar sinuca, talvez, pensava em falar com alguem dos acidentes e dos times de futebol, mas acabava ficando no balcão, com olhar perdido no programa que ele via na TV em coma da casa dele. Decadência, é o que ele pensa, e olha o relógio na parede, saí ali fora pra fumar uns 2 cigarros antes de voltar pra casa mais entediado do que antes estava.
Rúbia também volta pra casa entendiada um pouco mais, vida solitária, é verdade que ela pensa isso, vida de fugir das coisas que vive muitos dias da vida, gostaria de mudar algo, chegando em casa assiste um filme muito triste na TV e enquanto fazia abdominais chorou muito pelo drama alheio, aproveitando a chance pra secar seus olhos, uma agonia dentro dela que precisava de expurgo. Expurgou copiando os restos de maquiagem escorrida de uma atriz lá de outro país, que falava com a voz de outra, e imaginou alguém num estúdio todo isolado, chorando falsamente, e tentando transformar-se no choro daquela atriz, era ela, ali, agora, transformando-se no choro daquela atriz, atuando é fato, atuando a si mesma, sem ponto de interrogação. Vamos! Quero mais realidade, diziam pra ela, dizia pra si, e ela chorando, mais real, faça mais real rúbia, queremos ver você dançar, Rúbia dançando na boate, no palco, seus tornozelos doem um pouco, no sorriso não há um só rancor da dor, Rúbia chorava e já não tinha filme e demorou muito pra ouvir a campainha.
Marcos não hesita em apertar várias vezes a campainha como exitou pra apertar o botão do elevador, ele tinha ouvido a moça chorar, nunca tinha falado com ela, só visto de semblante, mas sentiu tão vivo em si o tédio e a angústia do dia perdido, das coisas perdidas que quando ouviu o choro dela no apartamento de baixo não pode deixar de ir vê-la, ver quem chorava o choro que ele não chorava.
Rúbia aparece, um instante, porque você está chorando? Está tudo bem?
- Acho que estou, é só um filme, quem é você? Enxuga as lágrimas tão desajeitadamente, é verdade que também muito suavemente.
- Sou do apartamento de cima, te ouvi chorando…
- Quer entrar?
Marcos queria entrar, ela era muito linda, desleixada caseiramente, queria sim muito entrar…
- Não sei, não se incomoda? É só por educação? Só queria mesmo ver se tava tudo bem.
- Vamos, entra.
Rúbia não sabia muito se devia dizer pra ele realmente entrar, porém o sábado era tão tedioso, e queria algo de novo. Marcos tinha um playstation quando criança, vai buscar a garrafa de vinho no seu apartamento, quando lá em cima, sente um arrepio verticalmente interessante subir-lhe o corpo, era bom falar com alguém novo, vinho com a moça que morava embaixo! Enquanto se batiam efusivamente na tela, a TV de 20 dava para os dois quase como uma cama de casal, eles foram tomando o vinho na taça suja de café que morava a 7 anos, todos os sábados, na sala. Marcos sentiu o gostinho de café no final do vinho tinto com amargo e delicia na língua, não entendia muito o que estava fazendo, foram cervejas, vinho e muito tédio até aquele instante, mas é certo também que isso não impedia que fosse muito convincente no jogo, os dois daquele instante.
Ela não sabia porque, exatamente o porque, mas sentia um descontrole, devia ser o vinho, a cerveja e o tédio… Rúbia achava que podia ter salvo o finalzinho do sábado com aquele rapaz gordinho que morava em cima, morava em cima dela, que graça, ele ouvindo embaixo os seus barulhos diários e ela ouvindo os dele, toda vez que dava descarga ou deixava o telefone tocar, até que no limite ele atendia… as vezes ficava tentando adivinhar em qual chamada ele atenderia, e quase sempre se confundia com o oitava, são os simulacros mágicos que fazemos quando estamos sozinhos, flanando sobre nós mesmos. Súbito, Rúbia quis dançar, subiu o vinho? Levantou-se e pausou o jogo, uma musica de teclados um tanto artificial tocou em quanto aparecia um menu em japonês, Rúbia levantou e começou a dançar, levemente, Ela começou a dançar levemente, Marcos pensou, e pensou também que ela estava alterada pela bebida, tava dançando musica de jogo, mas ele gostou e ela disse que era dançarina, devia estar acostumada a dançar de tudo e em todas as circunstâncias, com certeza já teria feito os fetiches homens por aí, dançando musicas de todos os tipos, perguntaria para ela depois se já tinha dançado salsa ou tango argentino, Marcos tirou os pensamentos da cabeça porque a dança começava a ficar mais interessante, com uma taça na mão e vinho na boca, ela se mexia suavemente e fechava os olhos por uns longos minutos e depois abria por poucos segundos, nunca atrasando seus sinais em relação a cômica música de jogo, é tão lindo, pensa Marcos, é linda e dança ao som de um Playstation. Rúbia de repente decide ir buscar um pouco de café e vai, e ele toma mais vinho e deita no chão, se sentindo bem..
Deitados assistindo a cama de casal de 20 polegadas, eles ficam depois num longo silêncio, e Marcos resolve lhe acariciar os cabelos na nuca, e o faz e ela recebe bem a sua mão, fechando os olhos e dorme, Marcos pensa que ela é linda, pensa em relógios que se adiantam, se atrasam e poucas vezes acertam, e pensou que estava certo ele estar ali naquela hora, e que tinha feito bem em seguir o som de um choro através dos tijolos, afinal, um cimento tão fino! Fechou os olhos.
Rúbia acordou no Domingo com dor de cabeça, dor nas pernas, desligou o videogame que ficou ligado, colocou as almofadas em cima do sofá, é verdade que também tirou a ramela do olho e também que lavou o roso amassado, massageou os dois lados da cabeça e então pensou em Marcos, Marcos o rapaz do apartamento de cima, que não tinha deixado muito mais do que uma garrafa vazia. Andou um pouco procurando restos de uma pessoa que tinha saído e evidencias de como, achou um bilhetinho mal escrito, ele foi ligar para a mãe, Rúbia achou bonito, Rúbia não visitava sua mãe faziam alguns anos e não ligava faziam alguns meses, era bonito quem tinha carinho pela mãe, pensou que ele não tinha deixado o seu número de telefone, pra que ela pudesse ligar e ele demorasse muito mesmo para atender, e ela contaria uma por uma as chamadas, apostando consigo mesmo quantas demoraria. Olhou para o relógio na parede, Rúbia odiava relógios. Sempre exatos, sempre.

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Choro em lá menor

Posted 17 novembro, 2009 by boldrin
Categories: Dos confis do por aí, Meus, Musica, Poesia

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Bem, hoje faz 50 anos de morte de Villa-Lobos e eu lendo o ótimo artigo que saiu na Revista Cult sobre ele e ouvindo seus prelúdios executados pelos irmãos Assad, senti de novo a já conhecida emoção que sempre me acompanha quando escuto Villa-Lobos… E me lembrei que esse sentimento certa vez me inspirou um poeminha… Que já faz muito tempo que fiz, mas que só agora senti vontade de por aqui, então aí vai ele…

Choro em lá menor

para Villa-Lobos

Essa alma é aquela que eu não tive
violão desgraçado, melodia maldita
tira meu choro como um sopro solto
canção de fel, fulgura raios frios

Ó tristeza vibrante!
canta em tua alegria
minha morte e vida
com a alma bela que eu não tive!

A covardia?

Posted 16 novembro, 2009 by boldrin
Categories: Escrita livre, Meus, Visual

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(Estou com um sentimento tão profundo e inocente que se demonstra na barreira ridícula do sentimentalismo nostálgico puro… … Eu quis de repente entrar num mundo solitário, porém mágico, de cores purpuras e amarelas que se misturam, eu quis… apenas um verniz do que quero dizer, representa minha visão do que era a infância…

Hoje, acordei e não quero a complicação do ontem, e do amanha, a complicação da vida urbanizada e modernizada, a vida adulta que fica batendo na minha cabeça (não eu não digo ser inútil e os mais abasbacados não precisam vir dizer que eu to usando o computador, que foi inventado por essa sociedade e bla bla bla), mas de repente a nostalgia ficou forte demais, o sentimento subiu ao caráter da impossibilidade de eu manter só pra mim… E preciso agora escrever desesperada e desenfreadamente tudo que vem…)

A preocupação do dia, da sobrevivência, não devia existir para os homens, devia ser tudo simples… tudo como num mundo feito por Syd Barret… Numa eterna partida de dominós num domingo de uma eterna conspiração cinza de dias chuvosos e amenos… numa eterna reinvenção de imagens absurdas que significassem o infinito na sua indefinição… Como os Cronópios de Cortázar, sendo simplesmente poesia no mundo… Como Barret criando elefantes efervescentes… Declaro inevitável que se unam esses maravilhosos sonhos de sonhadores pra que se derrube essa misteriosa miséria que habita o mundo…

é tão infantil querer o fim dessa merda… é tão criança fechar os olhos entre mãos… só querer os colos de mães… e é exatamente a criança que gostaria de ser novamente…

Observei surgirem da terra plantas dos grãos que eu comia, li quadrinhos de patos viajando nas Antilhas, acreditei em tesouros guardados em Alexandria, finalmente eu cri no mundo púrpura onde unicórnios e magos que desapareciam eram mais vívidos do que minha sala que rodeava a TV… eu tive esse mundo só pra mim… Todas as cores do mundo, todos os sentimentos, os cheiros, toda a infinita aspereza do lodo do quintal, antes de o simbolismo se abrigar em cada frase ou palavra… no final do sonho, no final do meu dia, no início da noite… Tive noites de insonia, noites de sonho, de descobrir os seios na madruga… antes que fossem apenas movimentos de sexo. Tudo parece banal agora pra mim, tudo o que faço todos os dias, essas redes de conversas repetidas, todo o nexo dos caculos, toda a esperança do futuro próspero, eu sinto desesperança de não sentir mais as cores como eram antes… eu sinto desesperança pois ela fugiu com o dia de ontem , fugiu com as provas que tenho que dar ao mundo. Não suporto a indiferença, o egoísmo usurpa minha cabeça toda nesse instante! Quero o mundo como era no meu umbigo de criança! E não é que o esqueiro se encaixa com o desenho da toalha, e não é que o pão é menos bom do que as casquinhas? Não é? Não é a canção de guerra que me faz ninar tão doce? Tão doce como a guerra pode ser com o sangue de crianças que não puderam nunca perceber as cores púrpuras e amarelas do meu sonho? Não é? Quero chorar como quis o Renato Russo ao pensar nos índios, quero chorar com os índios numa chuva imensa, numa imensa tempestade que leve num rede-moinho infinito o mundo pra outro universo menos amplo, menos infinito, para além do infinito, ao som de Comfortably Numb, em seu solo tão amplo e infinito, e onde estarão vocês? Todos morando no meu umbigo, meu mundo é tão belo meus amigos, meu mundo é o sonho dos sonhadores é o sonho dos sem nada, o sonho das misérias, é o lugar imaterial onde não há carne que não a que inventamos, é o mágico lisérgico natural, sob a chuva de uma primavera porteña, venha Borges, Piazzola, todos os argentinos, unimo-nos começando o novo sonho pela América Latina, vamos, vamos ao Brasil dos sonhos lindos dos mágicos redutos sonoros das vilas e dos lobos, nas entrelinhas infintas, vamos com Cortázar e Artaud num teatro mágico Hessiano, nos livrando dessa árida estepe, desses amargos símbolos ogivais da deformação! Deformem o mundo, numa tsunami de brisa cristalina, num brado genérico contra a adulteração do homem, do homem adulto, do homem…

Ah, eu não quero ser…

escolhi o não

agora.

Ode a elegia

Posted 16 novembro, 2009 by boldrin
Categories: Meus, Poesia

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o que é?
o que é incógnita
no punho de ferro quedando sobre a mesa
é claro pra mim
que nos olhos vermelhos,
num rio sem fim
de sangue refletido….
é tudo parte do rosto humano
a metáfora de si, duelando na infancia
num imenso deserto de grãos de areia radioativos
o que é o mistério?
da raça humana na pisicoanalise toda séria
dos braços do amor, todo embrulhado num rito incandecente
do calor da mágica que se sente, e não se sabe o porque
do mudo agudo sonoro choro indecente diante a beleza
nos olhos pregados a mim
de um mártir absurdo sobrevoando estático as cabeças espantalhas
nos braços dele, tão marcados…
a memória da morte
óbvia e perene.
o que é a incógnita?
a barbarie e a criança de mãos entrelaçadas
os dedinhos se enroscando suados, criando laços cristalinos
a cara humana esfacelada!
é tudo o cérebro danado
habitantes de divinas causas
todos esmagados
sobre a marcha indecente, a marcha de tal geométrica beleza!

Poesias de escola

Posted 13 novembro, 2009 by boldrin
Categories: Meus, Poesia

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Escola I

No primeiro dia
a névoa era a rua
a manhã, escura
um corredor longo, luz laranjada
rompeu o sangrar vários anos
do umbigo o cordão…
Choro pela morte de ilusão
um frêmito de angustia de medo
Era o início
o primeiro dia do que eram os dias
havia névoa, rua
na pequenez da infância, ser grande
era dura a hora
marcada
o ponteiro um dedo em riste
a ordem na doçura de mãe emprestada
ordem, necessidades, códigos novos
não mais meu quintal, meu lindo quintal
eram contagens de dedos laranjas ovos duzias
lugares cheios de água
de areia
minha fala na palavra…
sentia já distância do meu mundo
do meu mundo pras palavras, pancadas
crescer sempre, sempre
eu já não cresci desde aí.
A janela é o refúgio, árvores, luzes, cores reais.

Escola II

O que ela fala é secreto
é o que parece
e quando ela conta (aparentemente)
não me deixo ouvir
ou me deixo ouvir?
Minha boca é um tumulo
dos meus próprios segredos.