“Se for um trote, me chama depressa
Tenho um tédio enorme da vida.”
Vinícius de Morais em “O falso Mendigo”
Marcos não vai atender o telefone, decidiu não ir na casa da mãe e não atender seus telefonemas nesse sábado. É verdade que estava de saco cheio de ir lá todo santo sábado e também é verdade que ele se sente culpado em não atender o telefone e não ir ver mamãe… Marcos sentia mais raiva da impotência do que da culpa e não atenderia o telefone naquele sábado.
Submergiu então no universo pequeno do seu apartamento pequeno, ei-lo: Marcos está sentado nesse universo, no sofá, e fuma um cigarro, na verdade, fuma muitos cigarros, desliga o telefone puxando o fio e serve-se de vinho num copo de requeijão daqueles com o frajola, fica sentado no sofá, com a TV de 14 polegadas quase desligada, uma tevê em coma, semi-silencio, leve chiado, moças semi-nuas. Ele não assiste, ele devagarzinho vai ficando leve e evanescente com goles de vinho.Rúbia acordou no começo do anoitecer… Sábado é coisa sagrada para Rúbia, ela dança numa boate nos dias com feira da semana e é verdade que não acha o trabalho de todo o ruim, mas aquela não é a Rúbia que ela realmente é, e isso a angustia a maioria dos sábados, e é por isso que ela não quer sair, porque sua vida é, de uma forma ou de outra, sair, e dançar num cano, dançar com batom e tudo muito vermelho, e depois vai ficando tudo pouco e continua sendo vermelho mais a cor da pele. Rúbia nesse sábado não quer sair, é verdade que se sente entediada, mas a vontade de outro mundo que não aquele é maior que o tédio. Ela não quer fazer as coisas de ontem, nem transar. Ela liga o videogame, e fica deitada no tapete, encostada a cabeça no sofá, café numa taça, ela bebe o café, e vence partidas de Mortal Kombat.
Marcos escuta rádio, e acha uma benção que se possa ouvir rádio quando trabalha, ainda mas na sexta-feira, sim, Marcos pensa já que não quer ver a mãe nesse sábado, mas não tem planos muito grandiosos pra esse tempo perdido, Marcos auxilia um relojoeiro, é uma relojoaria pequena, na verdade uma pequena salinha, forrada de madeira, com muitos relógios e todos são atrasados ou adiantados e quando parados são meio tempo atrasados, meio tempo adiantados e um segundo certos. Marcos pensa nessas besteiras enquanto o tempo não passa. Muitos relógios podem deixar a cabeça de um assistente um tanto quanto engrenajosa, ela vai engrenando-se, as vezes adiantando, as vezes atrasando e é a vida. Ele pega as chavinhas, tome, muito obrigado, os relojos tic tac, agradecem. Muito tédio para Marcos que na verdade trabalha ali por não ter tido muito outra coisa o que fazer, pelo menos ainda era jovem. Marcos sai as 5 do trabalho, e vai de ônibus para o seu prédio, fica vendo filme do Corujão até as 5 da manhã e depois nem lembra direito o que era, sonolento, deitado no sofá, presta atenção em como os pensamentos se misturam, não vai ligar pra mãe, alguém no apartamento de baixo chuta a porta pra entrar, já se esqueceu do filme que assistiu, relógios enormes no céu, ponteiros, dedo em riste, o relógio o chama de filho e tem voz de telefone! Mas daí já é o sonho.
Rúbia chega exausta as 5 da manhã, vir de ônibus pra casa, na sexta-feira depois de tanto dançar e sorrir, era cansativo, fumaça, óleo diesel, muito cansaço para Rúbia. Quando chega em casa com mãos cheias de coisa, chuta a porta pra abrir e não liga muito ao pensar que pode acordar vizinhos, tira a saia, tudo bem vermelho e o sapato que já tava nas mãos, vai pra longe longe, põe uma calça e dorme rápido.
Jogar videogame era o que ela sempre fazia, sempre que tinha sábados como esse, de ficar em casa mole mole, fazia parte da nostalgia infantil, fuga do mundo trabalhoso, é verdade também que ela cansou e quis tomar uma cerveja quando começava de relance no horizonte a cair a noitinha, e foi isso que ela fez, tomou mais um busão que tornou seus olhos em olhos diesel, e chacoalhou até uma rua da cidade, e lá entrou no bar, Marcos sempre achava ridículo quando saía de casa pra ir no bar e ficava vendo a TV, pensava em jogar sinuca, talvez, pensava em falar com alguem dos acidentes e dos times de futebol, mas acabava ficando no balcão, com olhar perdido no programa que ele via na TV em coma da casa dele. Decadência, é o que ele pensa, e olha o relógio na parede, saí ali fora pra fumar uns 2 cigarros antes de voltar pra casa mais entediado do que antes estava.
Rúbia também volta pra casa entendiada um pouco mais, vida solitária, é verdade que ela pensa isso, vida de fugir das coisas que vive muitos dias da vida, gostaria de mudar algo, chegando em casa assiste um filme muito triste na TV e enquanto fazia abdominais chorou muito pelo drama alheio, aproveitando a chance pra secar seus olhos, uma agonia dentro dela que precisava de expurgo. Expurgou copiando os restos de maquiagem escorrida de uma atriz lá de outro país, que falava com a voz de outra, e imaginou alguém num estúdio todo isolado, chorando falsamente, e tentando transformar-se no choro daquela atriz, era ela, ali, agora, transformando-se no choro daquela atriz, atuando é fato, atuando a si mesma, sem ponto de interrogação. Vamos! Quero mais realidade, diziam pra ela, dizia pra si, e ela chorando, mais real, faça mais real rúbia, queremos ver você dançar, Rúbia dançando na boate, no palco, seus tornozelos doem um pouco, no sorriso não há um só rancor da dor, Rúbia chorava e já não tinha filme e demorou muito pra ouvir a campainha.
Marcos não hesita em apertar várias vezes a campainha como exitou pra apertar o botão do elevador, ele tinha ouvido a moça chorar, nunca tinha falado com ela, só visto de semblante, mas sentiu tão vivo em si o tédio e a angústia do dia perdido, das coisas perdidas que quando ouviu o choro dela no apartamento de baixo não pode deixar de ir vê-la, ver quem chorava o choro que ele não chorava.
Rúbia aparece, um instante, porque você está chorando? Está tudo bem?
- Acho que estou, é só um filme, quem é você? Enxuga as lágrimas tão desajeitadamente, é verdade que também muito suavemente.
- Sou do apartamento de cima, te ouvi chorando…
- Quer entrar?
Marcos queria entrar, ela era muito linda, desleixada caseiramente, queria sim muito entrar…
- Não sei, não se incomoda? É só por educação? Só queria mesmo ver se tava tudo bem.
- Vamos, entra.
Rúbia não sabia muito se devia dizer pra ele realmente entrar, porém o sábado era tão tedioso, e queria algo de novo. Marcos tinha um playstation quando criança, vai buscar a garrafa de vinho no seu apartamento, quando lá em cima, sente um arrepio verticalmente interessante subir-lhe o corpo, era bom falar com alguém novo, vinho com a moça que morava embaixo! Enquanto se batiam efusivamente na tela, a TV de 20 dava para os dois quase como uma cama de casal, eles foram tomando o vinho na taça suja de café que morava a 7 anos, todos os sábados, na sala. Marcos sentiu o gostinho de café no final do vinho tinto com amargo e delicia na língua, não entendia muito o que estava fazendo, foram cervejas, vinho e muito tédio até aquele instante, mas é certo também que isso não impedia que fosse muito convincente no jogo, os dois daquele instante.
Ela não sabia porque, exatamente o porque, mas sentia um descontrole, devia ser o vinho, a cerveja e o tédio… Rúbia achava que podia ter salvo o finalzinho do sábado com aquele rapaz gordinho que morava em cima, morava em cima dela, que graça, ele ouvindo embaixo os seus barulhos diários e ela ouvindo os dele, toda vez que dava descarga ou deixava o telefone tocar, até que no limite ele atendia… as vezes ficava tentando adivinhar em qual chamada ele atenderia, e quase sempre se confundia com o oitava, são os simulacros mágicos que fazemos quando estamos sozinhos, flanando sobre nós mesmos. Súbito, Rúbia quis dançar, subiu o vinho? Levantou-se e pausou o jogo, uma musica de teclados um tanto artificial tocou em quanto aparecia um menu em japonês, Rúbia levantou e começou a dançar, levemente, Ela começou a dançar levemente, Marcos pensou, e pensou também que ela estava alterada pela bebida, tava dançando musica de jogo, mas ele gostou e ela disse que era dançarina, devia estar acostumada a dançar de tudo e em todas as circunstâncias, com certeza já teria feito os fetiches homens por aí, dançando musicas de todos os tipos, perguntaria para ela depois se já tinha dançado salsa ou tango argentino, Marcos tirou os pensamentos da cabeça porque a dança começava a ficar mais interessante, com uma taça na mão e vinho na boca, ela se mexia suavemente e fechava os olhos por uns longos minutos e depois abria por poucos segundos, nunca atrasando seus sinais em relação a cômica música de jogo, é tão lindo, pensa Marcos, é linda e dança ao som de um Playstation. Rúbia de repente decide ir buscar um pouco de café e vai, e ele toma mais vinho e deita no chão, se sentindo bem..
Deitados assistindo a cama de casal de 20 polegadas, eles ficam depois num longo silêncio, e Marcos resolve lhe acariciar os cabelos na nuca, e o faz e ela recebe bem a sua mão, fechando os olhos e dorme, Marcos pensa que ela é linda, pensa em relógios que se adiantam, se atrasam e poucas vezes acertam, e pensou que estava certo ele estar ali naquela hora, e que tinha feito bem em seguir o som de um choro através dos tijolos, afinal, um cimento tão fino! Fechou os olhos.
Rúbia acordou no Domingo com dor de cabeça, dor nas pernas, desligou o videogame que ficou ligado, colocou as almofadas em cima do sofá, é verdade que também tirou a ramela do olho e também que lavou o roso amassado, massageou os dois lados da cabeça e então pensou em Marcos, Marcos o rapaz do apartamento de cima, que não tinha deixado muito mais do que uma garrafa vazia. Andou um pouco procurando restos de uma pessoa que tinha saído e evidencias de como, achou um bilhetinho mal escrito, ele foi ligar para a mãe, Rúbia achou bonito, Rúbia não visitava sua mãe faziam alguns anos e não ligava faziam alguns meses, era bonito quem tinha carinho pela mãe, pensou que ele não tinha deixado o seu número de telefone, pra que ela pudesse ligar e ele demorasse muito mesmo para atender, e ela contaria uma por uma as chamadas, apostando consigo mesmo quantas demoraria. Olhou para o relógio na parede, Rúbia odiava relógios. Sempre exatos, sempre.
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