Choro em lá menor

Posted 17 Novembro, 2009 by boldrin
Categories: Dos confis do por aí, Meus, Musica, Poesia

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Bem, hoje faz 50 anos de morte de Villa-Lobos e eu lendo o ótimo artigo que saiu na Revista Cult sobre ele e ouvindo seus prelúdios executados pelos irmãos Assad, senti de novo a já conhecida emoção que sempre me acompanha quando escuto Villa-Lobos… E me lembrei que esse sentimento certa vez me inspirou um poeminha… Que já faz muito tempo que fiz, mas que só agora senti vontade de por aqui, então aí vai ele…

Choro em lá menor

para Villa-Lobos

Essa alma é aquela que eu não tive
violão desgraçado, melodia maldita
tira meu choro como um sopro solto
canção de fel, fulgura raios frios

Ó tristeza vibrante!
canta em tua alegria
minha morte e vida
com a alma bela que eu não tive!

A covardia?

Posted 16 Novembro, 2009 by boldrin
Categories: Escrita livre, Meus, Visual

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(Estou com um sentimento tão profundo e inocente que se demonstra na barreira ridícula do sentimentalismo nostálgico puro… … Eu quis de repente entrar num mundo solitário, porém mágico, de cores purpuras e amarelas que se misturam, eu quis… apenas um verniz do que quero dizer, representa minha visão do que era a infância…

Hoje, acordei e não quero a complicação do ontem, e do amanha, a complicação da vida urbanizada e modernizada, a vida adulta que fica batendo na minha cabeça (não eu não digo ser inútil e os mais abasbacados não precisam vir dizer que eu to usando o computador, que foi inventado por essa sociedade e bla bla bla), mas de repente a nostalgia ficou forte demais, o sentimento subiu ao caráter da impossibilidade de eu manter só pra mim… E preciso agora escrever desesperada e desenfreadamente tudo que vem…)

A preocupação do dia, da sobrevivência, não devia existir para os homens, devia ser tudo simples… tudo como num mundo feito por Syd Barret… Numa eterna partida de dominós num domingo de uma eterna conspiração cinza de dias chuvosos e amenos… numa eterna reinvenção de imagens absurdas que significassem o infinito na sua indefinição… Como os Cronópios de Cortázar, sendo simplesmente poesia no mundo… Como Barret criando elefantes efervescentes… Declaro inevitável que se unam esses maravilhosos sonhos de sonhadores pra que se derrube essa misteriosa miséria que habita o mundo…

é tão infantil querer o fim dessa merda… é tão criança fechar os olhos entre mãos… só querer os colos de mães… e é exatamente a criança que gostaria de ser novamente…

Observei surgirem da terra plantas dos grãos que eu comia, li quadrinhos de patos viajando nas Antilhas, acreditei em tesouros guardados em Alexandria, finalmente eu cri no mundo púrpura onde unicórnios e magos que desapareciam eram mais vívidos do que minha sala que rodeava a TV… eu tive esse mundo só pra mim… Todas as cores do mundo, todos os sentimentos, os cheiros, toda a infinita aspereza do lodo do quintal, antes de o simbolismo se abrigar em cada frase ou palavra… no final do sonho, no final do meu dia, no início da noite… Tive noites de insonia, noites de sonho, de descobrir os seios na madruga… antes que fossem apenas movimentos de sexo. Tudo parece banal agora pra mim, tudo o que faço todos os dias, essas redes de conversas repetidas, todo o nexo dos caculos, toda a esperança do futuro próspero, eu sinto desesperança de não sentir mais as cores como eram antes… eu sinto desesperança pois ela fugiu com o dia de ontem , fugiu com as provas que tenho que dar ao mundo. Não suporto a indiferença, o egoísmo usurpa minha cabeça toda nesse instante! Quero o mundo como era no meu umbigo de criança! E não é que o esqueiro se encaixa com o desenho da toalha, e não é que o pão é menos bom do que as casquinhas? Não é? Não é a canção de guerra que me faz ninar tão doce? Tão doce como a guerra pode ser com o sangue de crianças que não puderam nunca perceber as cores púrpuras e amarelas do meu sonho? Não é? Quero chorar como quis o Renato Russo ao pensar nos índios, quero chorar com os índios numa chuva imensa, numa imensa tempestade que leve num rede-moinho infinito o mundo pra outro universo menos amplo, menos infinito, para além do infinito, ao som de Comfortably Numb, em seu solo tão amplo e infinito, e onde estarão vocês? Todos morando no meu umbigo, meu mundo é tão belo meus amigos, meu mundo é o sonho dos sonhadores é o sonho dos sem nada, o sonho das misérias, é o lugar imaterial onde não há carne que não a que inventamos, é o mágico lisérgico natural, sob a chuva de uma primavera porteña, venha Borges, Piazzola, todos os argentinos, unimo-nos começando o novo sonho pela América Latina, vamos, vamos ao Brasil dos sonhos lindos dos mágicos redutos sonoros das vilas e dos lobos, nas entrelinhas infintas, vamos com Cortázar e Artaud num teatro mágico Hessiano, nos livrando dessa árida estepe, desses amargos símbolos ogivais da deformação! Deformem o mundo, numa tsunami de brisa cristalina, num brado genérico contra a adulteração do homem, do homem adulto, do homem…

Ah, eu não quero ser…

escolhi o não

agora.

Ode a elegia

Posted 16 Novembro, 2009 by boldrin
Categories: Meus, Poesia

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o que é?
o que é incógnita
no punho de ferro quedando sobre a mesa
é claro pra mim
que nos olhos vermelhos,
num rio sem fim
de sangue refletido….
é tudo parte do rosto humano
a metáfora de si, duelando na infancia
num imenso deserto de grãos de areia radioativos
o que é o mistério?
da raça humana na pisicoanalise toda séria
dos braços do amor, todo embrulhado num rito incandecente
do calor da mágica que se sente, e não se sabe o porque
do mudo agudo sonoro choro indecente diante a beleza
nos olhos pregados a mim
de um mártir absurdo sobrevoando estático as cabeças espantalhas
nos braços dele, tão marcados…
a memória da morte
óbvia e perene.
o que é a incógnita?
a barbarie e a criança de mãos entrelaçadas
os dedinhos se enroscando suados, criando laços cristalinos
a cara humana esfacelada!
é tudo o cérebro danado
habitantes de divinas causas
todos esmagados
sobre a marcha indecente, a marcha de tal geométrica beleza!

Poesias de escola

Posted 13 Novembro, 2009 by boldrin
Categories: Meus, Poesia

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Escola I

No primeiro dia
a névoa era a rua
a manhã, escura
um corredor longo, luz laranjada
rompeu o sangrar vários anos
do umbigo o cordão…
Choro pela morte de ilusão
um frêmito de angustia de medo
Era o início
o primeiro dia do que eram os dias
havia névoa, rua
na pequenez da infância, ser grande
era dura a hora
marcada
o ponteiro um dedo em riste
a ordem na doçura de mãe emprestada
ordem, necessidades, códigos novos
não mais meu quintal, meu lindo quintal
eram contagens de dedos laranjas ovos duzias
lugares cheios de água
de areia
minha fala na palavra…
sentia já distância do meu mundo
do meu mundo pras palavras, pancadas
crescer sempre, sempre
eu já não cresci desde aí.
A janela é o refúgio, árvores, luzes, cores reais.

Escola II

O que ela fala é secreto
é o que parece
e quando ela conta (aparentemente)
não me deixo ouvir
ou me deixo ouvir?
Minha boca é um tumulo
dos meus próprios segredos.

Poema 0

Posted 28 Outubro, 2009 by boldrin
Categories: Meus, Poesia

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Eu não sou alguém
Não estou muito bem
obrigado.
Não há um na noite
escura, sou no escuro, dedos, violão
sons somente para mim
minha hora é única
Pelo ruído, arranho a corda
não amigo, não te abraço
não existe
não conforto
não pra mim.
Não estou muito bem
Obrigado.
Não há preocupação
esqueça, estou bem
esqueça, obrigado.
Sorrio pra você
Sou simples como a água
escorrendo pelo esgoto
insipida, inodora, toda tóxica
Na poesia evacuo todo o resto
de vácuo, cristalino
Enrubeço, não me olha assim
enraiveço, não me olha assim
que eu não esqueço, nunca mais.

1 Ano!

Posted 25 Outubro, 2009 by boldrin
Categories: Poesia, Uncategorized

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Sim, 1 ano…

Pra comemorar vai um Drummond:

O poeta escolhe seu túmulo

Onde foi Tróia,
onde foi Helena,
onde a erva cresce,
onde te despi,

onde pastam coelhos
a roer o tempo,
e um rio molha
roupas largadas,

onde houve, não
há mais agora
o ramo inclinado,

eu me sinto bem
e aí me sepulto
para sempre e um dia.

Oubli

degenerar para mal servir

Conto tirado de uma notícia de telejornal

Posted 22 Outubro, 2009 by boldrin
Categories: Continhos, Dos confis do por aí, Meus

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(pra ler jantando e falando sobre coisas casuais)

Tem uma luz, forte, na minha cara… Tem uma tela e um repórter me pergunta através dela, tem uma tela, sim, e um homem grande, truculento, com um microfone, tem outro na minha mão… Tem um microfone…
Os dias passaram rápidos… Uma cela fria, sangue nas minhas mãos…
Ele pergunta:
- Mulher, você sabe o que fez?
O que fiz? O que ele tá dizendo?
- você matou seu filho, diga ao Brasil porque.
Porque, porque? Não sei porque, eu matei meu filho? Realmente fiz isso… tenho que responder.. o repórter esta revolto, esta vermelho, quase baba.
- Não sei
- Como não sabe? Que tipo de pessoa é você? Mata o filho e não sabe porque? Tá ouvindo isso? Tão ouvindo isso?
- Não sei… Sou uma pessoa normal….
- Uma pessoa normal? Eu estou louco então
Silencio… Porque ele tá fazendo isso? Já não tenho meu filho, meu deus, matei meu filho…
- O Brasil te acha má, o Brasil precisa entender porque você fez isso, o Brasil quer saber mulher!
- Eu não sei…
- E aquele rapaz? O Wander, seu namorado.
- Ele não tem nada com isso… foi um caso, acabou, ele não tem nada a ver com isso.
Porque tenho que ouvir sobre ele? Aquele diabo… aquele homem maldito…
- Ah, não tem…
Não tem, diabos, não tem… Não tem nada com ele… Ele tinha… tinha algo e não tem mais… eu não tenho mais… aquelas pestes, aquela vida desgraçada… o que eu fiz? Meu Deus…
- Porque então, você matou seu filho? Diz , pra gente entender
Entender… Porque precisam entender? Porque querem saber afinal? Quem teve o filho? Quem suportou? Ninguém queria saber… ninguém queria…
- Já contei pro delegado.
- Me diz, Helena, você crê em Deus? Você acha que Deus existe?
Deus?
- Deus existe, creio sim
- O Brasil não te entende, eu não te entendo, você quer que eu entenda uma coisa assim? (ele grita) Como uma mãe mata um filho? Deus disse, minha cara, Deus disse que não se pode matar ao próximo, imagine um filho Helena, um Filho!
Virgem maria, cheia de graça, não fui forte, matei meu filho… fico em silencio…
- Quem vai entender uma coisa dessa?
Porque eu não consigo chorar? Porque minha cara nesse tela fica assim, tão reta, ríspida, eu matei meu filho, tenho a agonia dentro de mim… Ah.. Meu filho…
- Eu não te entendo Helena…
Break.

Teo(a)gonia

Posted 21 Outubro, 2009 by boldrin
Categories: Meus, Poesia

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Por todas as cenas de pietá
virgem maria,
caustica agonia
de um cristo todo mole, de músculos tesos
Por todas as simbologias
as mortes por arsênico
das meninas moles
não mais virgens, porém, marias….
Meninas moles, de ácidas margens, olhos fluidos

Sim, por todos que acreditam
seja em vénus, a estrela d’alva
seja no céu que cospe rios

Seja na marca da genética das mãos cansadas…

… nos olhos nas cartas que sugerem esperanças parcas…

Minha velha e doce mulher!
acende a vela e reza pra chama
reza pelas meninas moles
pelas mortes de arsênico…

Reza por mim, que não rezo.

Hernesto – Conto/poema

Posted 18 Outubro, 2009 by boldrin
Categories: Continhos, Meus, Poesia

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Quando nasceu Hernesto, ele não chorou
olhou e olhou, assustado e vermelho
e entrou o ar no pulmão pequeno
mas não foi alívio e refrescancia o que sentiu o bebê
foi o ar espesso como gelatina que o nariz soprou
Mamãe não olhou assustada, nem ao menos chorou
“antes nascer morto que viver no terror”
mas do mundo caduco ele não se livrou
nasceu e pra um fim de mundo, enxertado e ferido
foi carregado em braços fibrosos que o mundo a mãe dele entregou
sem beijo e ninar, pouco leite mamou
não chorava e quase esquecido foi crescendo puído e sem brilho, na parede pregado o sonho de um pai desertor
“Hernesto é nome forte, de quem herdou do avô”
na escola ou na rua, Hernesto nunca falou
Alguns achavam estranho, mas quando não pinica a urtiga
sua folhinha é uma flor
Quando ja grande se via não havia sibilado mais que um por favor…
Um dia, com seus doze anos e olhar sem amor ou pávio
deixou-se perder pela rua, pra esquecer a fuligem da dor
andou e andou e encontrou no meio do lixo
um ursinho peludo, pelúcia sujeira e fedor
Olhou pros olhos de plástico reluzindo a luz do sol a se pôr
e quando apertou o peito do bichinho marrom,
das estradas do mundo uma canção, tão plástica e pausada
pelo desgaste sem dor, soou no beco esquecido
(então os lábios Hernesto abriu, se assustou, se encantou, se abriu)
Hernesto agaixado no lodo, quis então cantar e tentou
bateu no seu peito bem forte, pra que de si surgisse a canção, do seu coração coagulado, da vida sofrida e sem cor
Bateu no peito a noite toda e somente do bichinho inanimado, fluia do peito o amor
Então pela primeira vez, Hernesto chorou e desistiu, ficou ali deitado
com o peito amassado, ouvindo o ruido agudinho do bichinho,
até que a pilha acabou.

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Conto/poema antigo que finalmente brotou.

Cortázar

Posted 14 Outubro, 2009 by boldrin
Categories: Dos confis do por aí, Poesia

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Álbum de fotos
(edição 1967, d.C.)

A verdadeira cara dos anjos
é que há napalm e há neblina e há tortura.
A cara verdadeira
é o sapato na merda, a segunda-feira de manhã, o jornal.
A verdadeira cara
está pendurada em cabides e liquidação de saldos, dos anjos
a cara verdadeira
é um álbum que custa trinta francos
e está cheio e caras (as veradeiras caras dos anjos):
a cara de um negrinho faminto,
a cara de um caboclinho mendigando,
um vietnamita, um argentino, um espanhol, a cara
verde da fome verdadeira dos anjos,
por três mil francos a emoção em casa,
a cara verdadeira dos anjos,
a cara verdadeira dos homens,
a verdadeira cara dos anjos.